Sábado, 28 de Fevereiro de 2015

Eu li... Cecília Meireles

RETRATO

 

Eu não tinha este rosto de hoje,

Assim calmo, assim triste, assim magro,

nem estes olhos tão vazios,

nem o lábio amargo.

 

Eu não tinha estas mãos sem força,

tão paradas e frias e mortas;

eu não tinha este coração

que nem se mostra.

 

Eu não dei por esta mudança,

tão simples, tão certa, tão fácil.

– Em que espelho ficou perdida

a minha face?

 

In “Antologia Poética”

Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro

 

Cecília Meireles

Poeta Brasileira

(1901 – 1964)

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Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2015

Eu li... Casimiro de Abreu

INFÂNCIA

 

Ó anjo da loura trança,
Que esperança
Nos traz a brisa do sul!
- Correm brisas das montanhas...
Vê se apanhas
A borboleta de azul!...

Ó anjo da loura trança,
És criança,
A vida começa a rir.
- Vive e folga descansada,
Descuidada
Das tristezas do porvir.

Ó anjo da loura trança,
Não descansa
A primavera inda em flor;
Por isso aproveita a aurora
Pois agora
Tudo é riso e tudo amor.

Ó anjo da loura trança,
A dor lança
Em nossa alma agro descrer.
- Que não encontres na vida
Flor querida,
Senão contínuo prazer.

Ó anjo da loura trança,
A onda é mansa
O céu é lindo dossel;
E sobre o mar tão dormente,
Docemente
Deixa correr teu batel.

Ó anjo da loura trança,
Que esperança
Nos traz a brisa do sul!...
- Correm brisas das montanhas...
Vê se apanhas
A borboleta de azul!...

 

Rio – 1858

 

In “As Primaveras”

 

Casimiro de Abreu

Poeta Brasileiro

(1839 – 1860)

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Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2015

Eu li... Fernando Assis Pacheco

PESO DE OUTONO

    

Eu vi o Outono desprender suas folhas,

cair no regaço de mulheres muito loucas.

Cem duzentas pessoas num café cheio de fumo

na cidade de Heidelberg pronta para a neve

saboreavam tepidamente a sua ignorância.

  

Eu vi as amantes ensandecerem

com esse peso de Outono. Perderam as forças

com o Outono masculino e sangrento.

Os gritos a meio da noite

das amantes a meio da loucura voavam

como facas para o meu peito.

 

Alguns poetas li-os melhor no Outono,

certos amores só poderia tê-los,

como tive, nos dias doces da vindima.

   

In "A Musa Irregular"

Edições Asa

 

Fernando Assis Pacheco

(1937 – 1995)

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Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2015

Eu li... Antónia da Conceição Louro Dionísio do Rosário

A MORTE ABALOU

 

Bateram à minha porta,

Mansamente fui espreitar;

Era a negra e feia morte

Que me queria levar!

 

Eu parei surpreendida

Minha porta não abri;

- P’ra que queres a minha vida

Se eu ainda a não vivi?

 

Então a morte abalou,

Mas disse por despedida:

- Tu própria me hás-de chamar

Cansada da triste vida.

 

Assim passaram os anos,

Ri, cantei, chorei, vivi!

Mas da vida os desenganos

Foi o que eu mais senti.

 

E quando a morte voltou,

Depois de muito a chamar,

Num pronto me aliviou

Deste tão triste penar!

 

In “Pétalas ao Vento”

 

Antónia da Conceição Louro Dionísio do Rosário

(1927 – 1977)

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Domingo, 8 de Fevereiro de 2015

Eu li... Mário de Sá-Carneiro

ESTÁTUA FALSA

 

Só de ouro falso os meus olhos se douram;

Sou esfinge sem mistério no poente.

A tristeza das coisas que não foram

Na minha'alma desceu veladamente.

 

Na minha dor quebram-se espadas de ânsia,

Gomos de luz em treva se misturam.

As sombras que eu dimano não perduram,

Como Ontem, para mim, Hoje é distancia.

 

Já não estremeço em face do segredo;

Nada me aloira já, nada me aterra:

A vida corre sobre mim em guerra,

E nem sequer um arrepio de mêdo!

 

Sou estrêla ébria que perdeu os céus,

Sereia louca que deixou o mar;

Sou templo prestes a ruir sem deus,

Estátua falsa ainda erguida ao ar...

 

(Paris, 5 de Maio de 1913)

 

Dispersão

 

In “Ler Por Gosto”

Areal Editores

 

Mário de Sá-Carneiro

(1890 – 1916)

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Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2015

Eu li... João José Cochofel

RESGATE

 

Meus pés moídos na calçada,

minhas tardes envenenadas de álcoois nos cafés,

e o vazio por dentro

a encher o tédio das horas sem nome.

 

Tudo isto

- moeda triste

que nem chega a pagar o sol da tardinha

e a poeira de feno que pontilhou de oiro

teu corpo entre trigais.

 

In “Breve”

 

João José Cochofel

(1919 – 1982)

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