Quinta-feira, 28 de Agosto de 2014

Eu li... António de Sousa

POETA

 

Sinto-me, às vezes, muito mais perfeito

E fujo de mim mesmo, alucinado!

As coisas balbuciantes no meu peito

Tomam gestos à luz de um Sol doirado.

 

Eu, que sou tôsco, inhabil, imperfeito,

Tenho uma fé de grande iluminado

E julgo, assim, que sou mais um eleito

Pra crear com amôr não sendo amado!

 

Vim ao Mundo na hora mysteriosa

Em que o Mundo comunga a luminosa

Dôr duma Cruz que o crava, lado a lado:

 

E os meus olhos, que vinham para vêr,

Alongados pra longe do meu Sêr,

Deixaram-me, ante Deus, ajoelhado!...

 

In "O Encantado",

Tipografia da Renascença Portuguesa

Porto – 1919

 

António de Sousa

1898 – 1981

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Sábado, 23 de Agosto de 2014

Eu li... Luiza Neto Jorge

A CABEÇA EM AMBULÂNCIA

 

Há feridas cíclicas há violentos voos

dentro de câmaras de ar curvas

feridas que se pensam de noite

e rebentam pela manhã

 

ou que de noite se abrem

e pela amanhã são pensadas

com todos os pensamentos

que os órgãos são hábeis

em inventar como pensos

 

ligaduras capacetes

sacramentos

com que se prende a cabeça

quando ela se nos afasta

 

quando ela nos pressente

em síncope ou desnudamento

ou num erro mais espaçoso

ou numa letra mais muda

ou na sala de tortura

na sala escura, de infância

 

O seu a seu tempo


In “Poesia”

Org. e prefácio de Fernando Cabral Martins

Assírio & Alvim - 2ª edição - 2001

 

Luiza Neto Jorge

1939 – 1989

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Segunda-feira, 18 de Agosto de 2014

Eu li... Luís Miguel Nava

A FOME

 

Aqui, onde a mão não
alcança o interruptor da vida, aqui
só brilha a solidão.
Desfazem-se as lembranças contra os vidros.

 

Aqui, onde a brancura
dum lenço é a brancura do infortúnio,

 

aqui a solidão
não brilha, apenas
se estorce.
A fome fala através das feridas.

 

In “Vulcão”
Editora Quetzal - 1994

 

Luís Miguel Nava
1957 – 1995

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Quarta-feira, 13 de Agosto de 2014

Eu li... A. M. Pires Cabral

DOLO OU DELÍRIO

 

Dolo ou delírio:

escolhe um, vive com ele.

Sustenta-o, usando de

manha ou martírio.

Escolhas o que escolheres,

foi para casos como o teu

que a solidão se fez.

Ao primeiro desencanto,

bebe dela a tragos longos

como quem bebe um licor

doloso, doloroso, delirante.

 

in “Arado”

Editora Cotovia – 2009

 

A. M. Pires Cabral

N. 1941

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Sexta-feira, 8 de Agosto de 2014

Eu li... Nuno de Figueiredo

15.

 

Há um cabo a dobrar dentro do sangue

após o canto os cânticos há cabos que dobrar

é dar o sangue por causas carregadas

de utopias causas que sabemos mortais

de mortes naturais há um cabo a

 

transpor ao sol poente gasto de alegria

que outrora grassava neste mar vivo e

tão vivido que se chamava vida se

vida é nome a dar a qualquer coisa mais

correspondente do que isto que sentimos

 

do que isto de saber haver um cabo

ao fim da terra onde a esperança finda

e o tumulto das vagas arremete

contra o último reduto o súbito

crepúsculo que se salva se há um cabo

 

um promontório donde tudo se avista

onde ninguém nos avista nem o sangue

em cujo leito o tal cabo se pranta e

nunca se dobra por mais que se insista.

 

In “A Única Estação”

Edições Quasi

 

Nuno de Figueiredo

N. 1943

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Domingo, 3 de Agosto de 2014

Eu li... António Cândido Franco

CONSTELAÇÕES

 

As estrelas têm um filamento de sangue

agarrado ao corpo da Terra.

Capilaridade da memória.

A terra arranca do chão árvores e astros.

Pensa e ama.

Pensar é astralizar a luz física.

Amar é corromper as formas do dia.

Exilá-Ias de noite no céu.

As estrelas são o resto imperceptível

do sangue da terra. Ideias que vivem.

A matéria pensa. A Terra quando dorme

liberta cintilações celestes.

O homem por sua vez desprende sonhos.

A terra é o leito onde o homem doente

se deita. Sobem do seu corpo

lenços brancos.

Cada cadáver liberta a fIutuação

dum tenuíssimo pano de linho.

Deixemo-nos morrer. Recostados na terra

anoitecidos pela morte e pelo amor

sobe de nós a palpitação insensível

dum sol.

É por isso que as estrelas são na terra

o que de nós no ar se evola.

Animam-se de vida sensível

na mais pura abstracção das formas.

Ao ser a memória dum corpo

seremos no Universo a matéria estelar.

Fogos, luminosos, inconformes.

 

 

In “Poesia Digital 7 poetas dos anos 80”

Ed. e Org.de Amadeu Baptista e José-Emílio Nelson

Editora Campo das Letras

 

António Cândido Franco

N. 1956

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