Terça-feira, 28 de Agosto de 2012

Eu li... João de Deus

MALMEQUER

 

Talvez em eu morrendo a teus ouvidos

Chegue a noticia, que hoje os factos vôam,

E oiças então os íntimos gemidos

        Que exalo e te não soam.

 

Talvez então, embora me não ames,

Com esses olhos húmidos de fito

Na minha sombra: «Desgraçado! exclames;

         Amava-me, acredito.

 

«Levou a vida amando-me: que prova

Me podia alguém dar de mais ternura,

Ingrata como eu era! Abri-lhe a cova,

        Cavei-lhe a sepultura!

 

«Hei-de regala de meu pranto. Julgo

Do meu dever... agradecer-lhe agora!

Purificar-me em lagrimas! O vulgo

          Que me censure embora.

 

«Hei-de ir dispor um pé de saudade

Na terra onde ele descansou da lida;

Mostrar-lhe amor, mostrar-lhe piedade,

          Que não mostrei em vida!»

 

Se fôres, meu amor! uma perpetua,

E uma saudade ser-me-ia doce!

Mas só perpetua ou saudade, aceito-a,

          E um malmequer que fosse.

 

 

In “Flores do Campo”

2ª edição – 1876

Livraria Universal de Magalhães & Moniz, Editores

 

João de Deus

1830 – 1896

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Quinta-feira, 23 de Agosto de 2012

Eu li... Murilo Mendes

AS LAVADEIRAS
 

As lavadeiras no tanque noturno
Não responderam ao canto da sibila.
 

“Lavamos os mortos,
Lavamos o tabuleiro das idéias antigas
E os balaústres para repouso do mar...
Nele encontramos restos de galeras,
Quem nos desviará do nosso canto obscuro?
Nele descobrimos o augusto pudor do vento,
O balanço do corpo do pirata com argolas,
Nele promovemos a sede do povo
E excitamos a nossa própria sede...”
 

As lavadeiras no tanque branco
Lavam o espectro da guerra.
Os braços das lavadeiras
No abismo noturno
Vão e vêm.

In “Poesia Liberdade”

Rio de Janeiro – Agir -1947

 

Murilo Mendes

(Poeta Brasileiro)

1901 – 1975

 

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Sábado, 18 de Agosto de 2012

Eu li... Teresa Pinto Aires

O MEU MUNDO

 

Naquele mundo que é só meu,

Toda a gente tem lugar,

Mas só ficam os que entram

Porque gostam de lá estar.

 

E o meu coração transborda

De felicidade sem fim,

Quando tenho os que mais quero

Sempre bem junto de mim.

 

E se ausentes, estão comigo,

Dentro do meu pensamento,

A quem se quer nunca esquece,

Um só único momento.

 

Mas o Mundo que é de todos,

Cheio de ódio e tanta dor,

Eu queria-o igual ao meu,

Onde reina Paz e Amor.

 

 

In “Revista Unearta”

Ano 1 – Nº 1 – Janeiro 2002

 

Teresa Pinto Aires

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Segunda-feira, 13 de Agosto de 2012

Eu li... Luís Vaz de Camões

DITOSO SEJA AQUELE QUE SOMENTE

 

Ditoso seja aquele que somente

se queixa de amorosas esquivanças;

pois por elas não perde as esperanças

de poder nalgum tempo ser contente.

 

Ditoso seja quem, estando ausente,

não sente mais que a pena das lembranças;

porque, ainda que se tema de mudanças,

menos se teme a dor quando se sente.

 

Ditoso seja, enfim, qualquer estado,

onde enganos, desprezos e isenção

trazem o coração atormentado.

 

Mas triste quem se sente magoado

d’erros em que não pode haver perdão,

em ficar n’alma a mágoa do pecado.

 

 

In “Se Tudo Fosse Igual a Ti”

Poesia de Luís de Camões

Editora Alma Azul – Janeiro 2007

 

Luís Vaz de Camões

1524? – 1580

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Quarta-feira, 8 de Agosto de 2012

Eu li... William Shakespeare

PERGUNTEI

 

Perguntei a um sábio,
a diferença que havia
entre amor e amizade,
ele me disse essa verdade...

O Amor é mais sensível,
a Amizade mais segura.
O Amor nos dá asas,
a Amizade o chão.

No Amor há mais carinho,
na Amizade compreensão.
O Amor é plantado
e com carinho cultivado,

a Amizade vem faceira,
e com troca de alegria e tristeza,
torna-se uma grande e querida
companheira.

Mas quando o Amor é sincero
ele vem com um grande amigo,
e quando a Amizade é concreta,
ela é cheia de amor e carinho.

Quando se tem um amigo
ou uma grande paixão,
ambos sentimentos coexistem
dentro do seu coração.

 

 

William Shakespeare

(Poeta Inglês)

1564 – 1616

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Sexta-feira, 3 de Agosto de 2012

Eu li... Augusto dos Anjos

VERSOS ÍNTIMOS

 

Vês! Ninguém assistiu ao formidável

Enterro de tua última quimera.

Somente a Ingratidão - esta pantera -

Foi tua companheira inseparável!

 

Acostuma-te à lama que te espera!

O Homem, que, nesta terra miserável,

Mora, entre feras, sente inevitável

Necessidade de também ser fera.

 

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!

O beijo, amigo, é a véspera do escarro,

A mão que afaga é a mesma que apedreja.

 

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,

Apedreja essa mão vil que te afaga,

Escarra nessa boca que te beija!

 

 

In "Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século"

Editora Objetiva – Rio de Janeiro.

 

Augusto dos Anjos

(Poeta Brasileiro)

1884 – 1914

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