Segunda-feira, 27 de Junho de 2011

Eu li... Carlos de Lemos

ROSA – LYRA

 

                 O eterno feminino attrahe-nos para o céo.

                       (Geote – 2.ª parte do «Faust»)

 

 

Nelumbo cor de rosa á flor das águas,

Diademado de sol, erguendo a face:

Extasiado, o Poeta, longe as maguas

Na graça do teu corpo os olhos pasce…

 

Feliz de quem, do amor na apotheose,

O nectar do teu calix ébrio gose!

 

Rosa de carne como um luar de rosa,

Ou rosa de luar em carne feita:

É uma volupia estranha e capitosa

Essa fragancia que o teu corpo deita:

 

Feliz de quem o teu perfume aspira

E de aspira-lo em extasis delira!

 

O collo em lyra, dois rubis ao alto:

Em lyra as ancas, uma rosa ao centro:

Dupla lyra de prata: e em sobressalto

Um par de rolas a gemer lá dentro.

 

Feliz de quem as tuas cordas vibra

E aos teus accordes para os ceus se libra!

 

Lyra que mesmo adormecida canta

Em voz de sonho uma canção de lenda:

Rosa que mesmo assim fechada encanta

E a alma prende antes que os olhos prenda!

 

Feliz, ah! bem feliz de quem, ó rosa,

Com o teu o meu halito desposa|

E feliz, mais feliz de quem, ó lyra,

Rima os seus ais co’os teus, quando suspira!

 

 

1904

 

In Revista “A Águia”

N.º 2 – 1ª Série – Ano I – 15 de Dezembro de 1910

 

Carlos de Lemos

 

 

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Terça-feira, 21 de Junho de 2011

Eu li... António de Sousa

CANÇÃO DA CHUVA

 

Bate a chuva, tic... tic...
Nas vidraças da janela.
Canta a chuva, tic... tic...
Que linda canção aquela!  

 

Tic... tic... tic... tic...
Que linda canção aquela
De meninas ao despique:
- Qual  de nós será mais bela? 

 

Meninas a fazer meia
Com as nuvens de novelo,
Nenhuma delas é feia!

 

Tic... tic... tic... tic...
Tenho um medo que me pelo,
Que alguma delas me pique.

 

 

In “Poesia para a Infância”

Colectânea de Alice Gomes

Editora Ulisseia

 

António de Sousa

1898 – 1981

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Quarta-feira, 15 de Junho de 2011

Eu li... Augusto Gil

JOANINHA

Descanse de quando em quando…
Passar assim toda a tarde
Sempre bordando, bordando,
Sem que um momento desista,
Até faz pena! Não lhe arde
Nem se lhe perturba a vista?…

Descanse de quando em quando…
Erga os olhos do bordado
E veja quem vai passando.
O trabalho alegra a gente,
Mas assim, tão aturado,
- Não lhe faz bem, certamente;

Erga a carinha tranquila,
Erga esse rosto tão lindo
E veja os moços da vila
A passarem por aqui,
Uns descendo, outros subindo.
- E todos de olhos em si…

Descanse de quando em quando
E veja se escolhe algum;
Já é tempo de ir pensando
Em casar. Não é assim?…
Se não lhe agrada nenhum,
- Diga se gosta de mim.

Desde os começos do Outono
Que eu a trago no sentido,
Não como, não tenho sono,
Tudo me dá ralação.
Quer-me para seu marido?
- Diga que sim ou que não…

 

 

In “Luar de Janeiro”

Estante Editora

 

Augusto Gil

1873 – 1929  

 

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Quinta-feira, 9 de Junho de 2011

Eu li... Natália Correia

A DEFESA DO POETA

 

Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto

 

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim

 

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes

 

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei

 

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em criança que salvo
do incêndio da vossa lição

 

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis

 

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além

 

Senhores três quatro cinco e Sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

 

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa

 

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.

 

 

In “Poemas a Rebate”
Publicações Dom Quixote

 

Natália Correia

1923 – 1993

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Sexta-feira, 3 de Junho de 2011

Eu li... Cecília Meireles

CANÇÃO


Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.


Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.


O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...


Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.


Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

 

 

“Viagem”

 

In “Ler Por Gosto”

Areal Editores

 

Cecília Meireles

1901 – 1964

(Poetisa Brasileira)

 

 

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