Domingo, 27 de Fevereiro de 2011

Eu li... Antonio Joaquim de Mesquita e Mello

VENHO, DOURO FELIZ

 

Venho, Douro feliz, sentar-me agora

Á sombra dos teus alamos copados,

Por dar um desafogo aos meus cuidados,

Á saudade cruel que me devora.

 

Tu pois, que chegas onde Annalia mora,

Prazeres desfructando a mim vedados,

Dize-lhe que em desterro n’estes prados

Sem nunca alivio ter Notanio chora!

 

Dize-lhe que por ella afflicto chamo;

Em testemunho da saudade minha

Leva-lhe algum do pranto que derramo.

 

E se ao triste presente fôr mesquinha,

Da sua habitação furta-lhe um ramo,

Ou traze-me se quer uma folhinha.

 

 

Soneto XLIII

 

 

In “Collecção de Poesias Reimpressas e Ineditas”

Tomo II – e ultimo. 1861

Typ. de Manoel  José Pereira – Porto

 

Antonio Joaquim de Mesquita e Mello

 

 

Nota – Grafia Original

 

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Quarta-feira, 23 de Fevereiro de 2011

Eu li... Adolfo Simões Müller

LOVE-FICTION

O poeta é um fingidor
Fernando Pessoa


Quando chegar à Lua, hei-de encontrar,
na fria alcova de árida cratera,
a verde selenita que me espera,
gota final de algum extinto mar.

Terei então cem anos? Um milhar?
Ou mais talvez, além da nossa era...
E ela será botão de primavera
que sem pólen não chega a despertar.

Eu darei saltos de acrobata, ao vê-las,
às algas dos seus dedos, a alongar-se
em railes a caminho das estrelas...

Desceremos os dois, porém, uma curva,
onde o mistério se abre, sem disfarce,
para a face da Lua funda e turva.


In “Moço, Bengala e Cão”
Edição do Autor

Adolfo Simões Müller
1909 – 1989

 

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Sábado, 19 de Fevereiro de 2011

Eu li... Carlos Drummond de Andrade

O AMOR ANTIGO

 

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
a antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

 

 

In “Obra Poética” Vol. V

 

Carlos Drummond de Andrade

(Poeta Brasileiro)

1902 – 1987

 

 

 

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Terça-feira, 15 de Fevereiro de 2011

Eu li... Manuel Amendoeira

ILUSÃO

 

Envolta numa ilusão,

Vi passar na minha rua

Uma rosa perfumada.

Fui atrás dessa ilusão

Pela noite, à luz da lua

Perdi-a de madrugada.

 

Corri por montes e vales,

Sempre atrás dessa ilusão

De encontrar meu grande amor.

Ouvia o arrolhar das aves,

Mas este meu coração

Sangrava morto de dor.

E já cansado de andar,

Vi romper a madrugada

Até então adormecida.

Senti meu coração gritar,

Pois a rosa perfumada

Já tinha sido colhida.

 

Parei então fatigado,

P’ra beijá-la com amor

De todo o meu coração.

Mas quando quis afagá-la

Acordei, pois essa flor,

Era apenas ilusão.

 

 

In “Revista Mensal Unearta”

N.º 13 -  Ano 2 -  Janeiro.2003

 

Manuel Amendoeira

N. 1940

 

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Sexta-feira, 11 de Fevereiro de 2011

Eu li... Paul Verlaine

A ANGÚSTIA

 

Nada em ti me comove, Natureza, nem
Faustos das madrugadas, nem campos fecundos,
Nem pastorais do Sul, com o seu eco tão rubro,
A solene dolência dos poentes, além.

Eu rio-me da Arte, do Homem, das canções,
Da poesia, dos templos e das espirais
Lançadas para o céu vazio plas catedrais.
Vejo com os mesmos olhos os maus e os bons.

Não creio em Deus, abjuro e renego qualquer
Pensamento, e nem posso ouvir sequer falar
Dessa velha ironia a que chamam Amor.

Já farta de existir, com medo de morrer,
Como um brigue perdido entre as ondas do mar,
A minha alma persegue um naufrágio maior.


In "Melancolia"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral

 

Paul Verlaine

(Poeta Francês)

1844 – 1896

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Segunda-feira, 7 de Fevereiro de 2011

Eu li... Alberto de Serpa

VOO QUEBRADO

 

Subir!

Ter asa e voar

Por aí fora,

Numa largada sem fim...

Acima das casas,

Acima dos montes,

Para além das nuvens,

Para além da vida...

Mais alto,

Sempre mais alto!

 

Passar acima das aves...

 

Depois,

Querer mais, mais alto...

Sempre mais alto...

A gente não se cansa.

Cansa querer subir

Mais alto e não poder.

 

 

 

Alberto de Serpa

1906 – 1992

 

 

 

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Quinta-feira, 3 de Fevereiro de 2011

Eu li... Florbela Espanca

ORAÇÃO DE JOELHOS

 

Bendita seja a mãe que te gerou!
Bendito o leite que te fez crescer!
Bendito o berço aonde te embalou
A tua ama pra te adormecer!

Bendito seja o brilho do luar
Da noite em que nasceste tão suave,
Que deu essa candura ao teu olhar
E à tua voz esse gorjeio d'ave!

Benditos sejam todos que te amarem!
Os que em volta de ti ajoelharem
Numa grande paixão, fervente, louca!

E se mais, que eu, um dia te quiser
Alguém, bendita seja essa mulher!
Bendito seja o beijo dessa boca!

 

 

In “O Livro D’ele – Poesia Completa”

Publicações Dom Quixote

 

Florbela Espanca

1894 – 1930

 

 

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