Segunda-feira, 30 de Março de 2009

Eu li... Maria João Brito de Sousa

MARIA-SEM-CAMISA

 

Maria-Sem-Camisa, a sem dinheiro,

Passando pela vida ao Deus-dará

Tem fama de ser louca e de ser má

Mas, no fundo, é poeta a tempo inteiro...

 

Maria vai plantando o seu canteiro

De sementes de si e o que não há

Inventa-o a Maria e tanto dá

Ter pouco se tão rico se é primeiro...

 

Maria-Sem-Camisa planta ideias

E disso vai colhendo o seu sustento

Sem cuidar da chegada ou da partida...

 

Os frutos que ela colhe são candeias,

São estrelas a luzir no firmamento

Da órbita em que traça a sua vida...



In "Poeta Porque Deus Quer"

 

Maria João Brito de Sousa

 

 

 

 

 

 

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Quarta-feira, 25 de Março de 2009

Ei li... Frei Lopes Morgado

PARA TI O MEU VERSO  

 

Um verso que tu entendas,

Pois é para ti meu verso,

Terá que falar de rendas,

De roca e fuso, e de terço.

 

Tem de ter uma paisagem

Que meta rios e montes

E campos verdes e aragem

E flores e muitas fontes.

 

E, porque gostas de cores,

Um caminho de arco-íris,

Para ires quando fores

E, quando quiseres, vires.

 

 

In “Fátima Missionária”

 

Frei Lopes Morgado

 

 

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Sexta-feira, 20 de Março de 2009

Eu li... Cesário Verde

CONTRARIEDADES


Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.


Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve a conta na botica!
Mal ganha para sopas...

O obstáculo estimula, toma-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais duma redacção, das que elogiam tudo,
Me tem fechado a porta.

A critica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa
Vale um desdém solene.

Com raras excepções merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo,
Soluça um sol-e-dó. Chuvisca. O populacho
Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingénuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.

Arte? Não lhes convém, visto que os seus leitores
Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie;
E a mim, não há questão que mais me contrarie
Do que escrever em prosa.

A adulação repugna aos sentimentos finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exactos
Os meus alexandrinos...

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe humedece as casas,
E fina-se ao desprezo!

Mantêm-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente
Oiço-a cantarolar uma canção plangente

Duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
Impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a réclame, a intriga, o anúncio, a blague,
E esta poesia pede um editor que pague
Todas as minhas obras...

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
Que mundo! Coitadinha!

 

 

 

In “Ler Por Gosto”

Areal Editores

 

Cesário Verde

1855 – 1886

 

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Domingo, 15 de Março de 2009

Eu li... Afonso Lopes Vieira

SAUDADES TRÁGICO-MARÍTIMAS

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.
Na praia, de bruços,
fico sonhando, fico-me escutando
o que em mim sonha e lembra e chora alguém;
e oiço nesta alma minha
um longínquo rumor de ladainha,
e soluços,
de além...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

São meus Avós rezando,
que andaram navegando e que se foram,
olhando todos os céus;
são eles que em mim choram
seu fundo e longo adeus,
e rezam na ânsia crua dos naufrágios;
choram de longe em mim, e eu oiço-os bem,
choram ao longe em mim sinas, presságios,
de além, de além...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

Naufraguei cem vezes já...
Uma, foi na nau S. Bento,
e vi morrer, no trágico tormento,
Dona Leonor de Sá:
vi-a nua, na praia áspera e feia,
com os olhos implorando
- olhos de esposa e mãe -
e vi-a, seus cabelos desatando,
cavar a sua cova e enterrar-se na areia.
- E sozinho me fui pela praia além...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

Escuto em mim, – oiço a grita
da rude gente aflita:
- Senhor Deus, misericórdia!
- Virgem Mãe, misericórdia!
Doidos de fome e de terror varados,
gritamos nossos pecados,
e sai de cada boca rouca e louca
a confissão!
- Senhor Deus, misericórdia!
- Misericórdia, Virgem Mãe!
e o vento geme
no bulcão
sem astros;
anoitecemos sem leme,
amanhecemos sem mastros!
E o mar e o céu, sem fim, além...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

Ah! Deus por certo conhece
minha voz que se ergue, branca e sozinha,
- flor de angústia a subir aos céus varados
p'la dor da ladainha!
Transido, o clamor da prece
do mesmo sangue nos veios
Deus conhece os meus olhos alongados;
onde o mar e o céu deixaram
um pouco de vago anseio
nesse mistério longo do seu halo...
Rezam em mim os outros que rezaram,
e choraram também;
há um pranto português, e eu sei chorá-lo
com lágrimas de além...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar.

Ó meu amor, repara
nos meus olhos, na sua mágoa clara!
Ainda é de além
o meu olhar de amor
e o meu beijo também.
Se sou triste, é de outrora a minha pena,
de longe a minha dor
e a minha ansiedade.
Vês como te amo, vês?
Meu sangue é português,
minha pele é morena,
minha graça a Saudade,
meus olhos longos de escutar sem fim
o além, em mim...

Chora no ritmo do meu sangue, o Mar


In “Ilhas de Bruma” – 1917

 

Afonso Lopes Vieira

 

 

 

 

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Terça-feira, 10 de Março de 2009

Eu li... Jorge Sousa Braga

AS ÁRVORES E OS LIVROS

As árvores como os livros têm folhas
e margens lisas ou recortadas,
e capas (isto é copas) e capítulos
de flores e letras de oiro nas lombadas.  

 

E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,
que se podem ler nas suas páginas,
no pecíolo, no limbo, nas nervuras.  

 

As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas».  

 

É evidente que não podes plantar
no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras.


In “Herbário”

Assírio & Alvim               

 

Jorge Sousa Braga

N. 1957

 

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Quinta-feira, 5 de Março de 2009

Eu li... Eucanaã Ferraz

ESTRELA DO PASTOR

 

Estrela do pastor,

ouve esta guitarra:

 

se meu amor me ama,

a porta bata,

vento fino,

flor na estampa do lençol

se abra

abrupta.

 

Estrela polar,

ouvido de lata:

 

se meu amor pensa em mim,

ruído de asas e

o limo da hora

escorra das calhas,

alguém assobie,

abelhas.

 

Asterisco à toa,

acrobata:

 

se meu amor não me ama

os barcos retornam já,

a lua se parte

ao meio,

cai uma banda na rua,

a outra, no fundo do mar.

 

Estrela cadente,

mate-me.

 

 

In “Desassombro”

Edições Quasi – 2001

 

 

Eucanaã Ferraz

(Poeta Brasileiro)

 

 

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Segunda-feira, 2 de Março de 2009

Eu li... Cecília Meireles

CARONTE

Caronte, juntos agora remaremos:
eu com a música, tu com os remos.

 

Meus pais, meus avós, meus irmãos,
já também vieram, pelas tuas mãos.

 

Mas eu sempre fui a mais marinheira:
trata-me como tua companheira.

 

Fala-me das coisas que estão por aqui,
das águas, das névoas, dos peixes, de ti.

 

Que mundo tão suave! que barca tão calma!
Meu corpo não viste: sou alma.

 

Doce é deixar-se, e ternura o fim
do que se amava. Quem soube de mim?

 

Dize: a voz dos homens fala-nos ainda?
Não, que antes do meio sua voz é finda.

 

Rema com doçura, rema devagar:
não estremeças este plácido lugar.

 

Pago-te em sonho, pago-te em cantiga,
pago-te em estrela, em amor de amiga.

 

Dize, a voz dos deuses onde principia,
neste mundo vosso, de perene dia?

 

Caronte, narra mais tarde, a quem vier,
como a sombra trouxeste aqui de uma mulher

 

tão só, que te fez teu amigo;
tão doce - ADEUS! - que canta até contigo!

 

 

In “Mar Absoluto e Outros Poemas”

“Ler Por Gosto” - Areal Editores

 

Cecília Meireles

(Poetisa Brasileira)

 

 

 

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