Terça-feira, 30 de Dezembro de 2008

Eu li... Albano Martins

ALUCINAÇÃO

Trago os olhos inundados de poeira.
Vejo tudo na sombra que me vive
e a própria noite é uma cegueira
a fechar ilusões que nunca tive.

Desenham-se contornos imprecisos
nos auges limitados do meu ser.
E fico mudo, a ostentar sorrisos
que nem eu mesmo sei compreender.

Toda a paisagem é fechada e nua
como o tronco lavado dum arbusto,
onde os esguios caracóis da lua
tecem meadas de susto.

Perturba-me a penumbra como um cio.
Quero lançar a minha angústia aos ventos,
e o meu desejo alçado é como um frio
aborto de irreais lamentos.

Sinto-me aflito com a dúbia luz
que irrompe da fundura dos pinhais.
Estalam ecos. E o pavor conduz
meu corpo a regiões sinistras, outonais.

Cavam-se abismos fundos a meus pés
e eu fico a olhá-los, espantado e quedo.
Rebentam violências de marés
à minha volta, a transportar o medo.

Noite opressiva, esta que me fita.
(E a minha angústia é cada vez maior.)
Mas, de repente, como quem medita
e se rebela contra a sua dor,

lanço, obstinado, mãos à tatuagem
que me tapa os olhos delirantes
e vejo-me sentado a beber a aragem
que o dia traz nos braços madrugantes.


In “Vocação do Silêncio”
Biblioteca de Autores Portugueses,
Imprensa Nacional – Casa da Moeda
Lisboa, 1990


Albano Martins

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Quinta-feira, 25 de Dezembro de 2008

Eu li... Jacinto de Almeida

NATAL

 

Estendeu as mãozitas para o Céu

E lá do Céu uma estrela sorria...

Mas o pobre Menino bem sabia

Que a estrela estava distante...

- Foi nessa noite que o Menino nasceu...

       

Quem nasce não sabe...

Mas o Menino já sabia,

Ó noite de Natal

Tão gélida tão fria!...

 

Para vestir o Menino

Quem lhe dá o enxoval?

 

Treme de frio coitadinho,

Nas palhas do bercinho

Daquele humilde curral.

 

A Estrela cortou o céu

E sobre o Menino desceu

E nesse instante fugiu!...

 

Depois, já era luzeiro

Aquele humilde curral!...

 

Mas inda não era dia,

Porque o sol não nascia...

E das bandas do deserto

Uma caravana surgia!...

 

Sobre as palhinhas geladas,

Nuzinho como nasceu,

O Menino a tiritar

Sorria... Para o Céu!...

 

 

In “Saudades de Amor” - 1966

 

 

Jacinto de Almeida

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Sábado, 20 de Dezembro de 2008

Eu li... Álvaro Campos/Fernando Pessoa

CONTUDO

 

Contudo, contudo,  
Também houve gládios e flâmulas de cores 
Na Primavera do que sonhei de mim.  
Também a esperança 
Orvalhou os campos da minha visão involuntária,  
Também tive quem também me sorrisse.  

Hoje estou como se esse tivesse sido outro.  
Quem fui não me lembra senão como uma história apensa.  
Quem serei não me interessa, como o futuro do mundo.  

 

Caí pela escada abaixo subitamente,  
E até o som de cair era a gargalhada da queda.  
Cada degrau era a testemunha importuna e dura 
Do ridículo que fiz de mim.  

 

Pobre do que perdeu o lugar oferecido por não ter casaco limpo com que aparecesse, 
Mas pobre também do que, sendo rico e nobre, 
Perdeu o lugar do amor por não ter casaco bom dentro do desejo. 
Sou imparcial como a neve.  
Nunca preferi o pobre ao rico,  
Como, em mim, nunca preferi nada a nada.  

 

Vi sempre o mundo independentemente de mim.  
Por trás disso estavam as minhas sensações vivíssimas,  
Mas isso era outro mundo.  
Contudo a minha mágoa nunca me fez ver negro o que era cor
de laranja. 
Acima de tudo o mundo externo! 
Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim. 

 

 

In “Os Grandes Clássicos da Literatura Portuguesa

Fernando Pessoa – Poesia de Álvaro Campos – Vol. II”

Assírio & Alvim e Herdeiros de Fernando Pessoa

(edição de Teresa Rita Lopes), Lisboa, 2002

Da presente edição:

Editora Planeta DeAgostini, S.A. – Lisboa

Colecção dirigida por Vasco Graça Moura

 

Álvaro de Campos/Fernando Pessoa

 

 

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Segunda-feira, 15 de Dezembro de 2008

Eu li... Campos Teixiera

UMA LÁGRIMA

 

 

Dos olhos desprendida,

uma gota preciosa,

pela face setinosa,

levemente colorida,

 

deslizou pura e serena

– essa gota de cristal –

e foi perder-se afinal,

na tua boca pequena.

 

 

In Livro "Trovas Portuguesas" – Porto – 1924

Casa Editora de A. Figueirinhas

 

Campos Teixeira

 

 

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Quarta-feira, 10 de Dezembro de 2008

Eu li... Serafim Leite

UMA ESMOLINHA POR AMOR DE DEUS!

 

O pobre vai pedindo esmola por cada porta…

 

Vêde-o esfarrapado, ouvi-lhe a voz que corta

os corações, ansiando uma côdea de pão…

A chuva em fio canta; é como um violão

em que o Tempo dedilha, iguais, longas, profundas,

as endeixas do outono e folhas moribundas.

 

Lá vai de porta em porta. Ouvi. Pede por Deus!...

Pede por Deus, que é Pai universal dos céus,

o Pai que envia ao mundo – imenso sorvedoiro –

ao pobre as ilusões, ao rico os sacos de oiro.

 

As lágrimas de sal que a esmola ao pobre enxuga,

são mais doces que o mel que a sacra abelha suga.

Como a abelhinha, a esmola, haurindo em cada dor

                    as lágrimas de fel,

vertendo-as docemente em cálices de amor,

pelo amor  as transforma em lágrimas de mel.

 

Lá vai! Não pode mais. Trupa em tôdas as casas.

Faz um frio mortal. Lá dentro cantam brasas.

Porque é que não abris? Pede por Deus! Dizei:

Quem ganha mais na esmola?... Um só a dá; mas

sei que cai em duas mãos. Os generosos veios

do pão dado por Deus, são quais maternos seios,

fecundos como o céu, puros como o jasmim,

doando a dois irmãos, simultâneo festim:

 

Recebe o pão da esmola o pobre, mais os seus,

mas quem a dá recebe a bênção do seu Deus.

 

 

In “Do Homem e da Terra” – Poemas – 1932

Edições “Brotéria” – Lisboa

 

Serafim Leite

 

 

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Sexta-feira, 5 de Dezembro de 2008

Eu li... Deolinda Reis

RASCUNHO RASGADO

 

Foi nesse papel qu’escrevi

todos os meus  ideais;

foi nele que tentei registar

vidas com diferentes sinais.

 

Nessa folha percebi e senti

que a tinha por companheira,

sem lamúrias nem repreensão,

acompanhando-me a vida inteira.

 

Agora, tanta coisa nela registei,

formas diferentes d’um sofrer

que me faz ainda estremecer.

 

Já não a quero, para não me lembrar

estas tristes formas de viver

qu’um dia me fizeram chorar.

 

 

In “No Silêncio das Palavras”

artEscrita Editora, Ldª.

1ª Edição – Setembro.2007

 

Deolinda Reis

 

 

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