Quarta-feira, 10 de Agosto de 2016

Eu li... Wislawa Szymborska

OPINIÃO SOBRE A PORNOGRAFIA

 

Não há devassidão maior que o pensamento.

Essa diabrura prolifera como erva daninha

Num canteiro demarcado para margaridas.

 

Para aqueles que pensam, nada é sagrado.

O topete de chamar as coisas pelos nomes,

A dissolução da análise, a impudicícia da síntese,

A perseguição selvagem e debochada dos fatos nus,

O tatear indecente dos temas delicados,

A desova das ideias - é disso que eles gostam.

 

À luz do dia ou na escuridão da noite

Se juntam aos pares, triângulos e círculos.

Pouco importa ali o sexo e a idade dos parceiros.

Seus olhos brilham, as faces queimam.

Um amigo desvirtua o outro.

Filhas depravadas degeneram o pai.

O irmão leva a irmã mais nova para o mau caminho.

 

Preferem o sabor de outros frutos

Da árvore proibida do conhecimento

Do que os traseiros rosados das revistas ilustradas,

Toda essa pornografia na verdade simplória.

Os livros que divertem não têm figuras.

A única variedade são certas frases

Marcadas com a unha ou com lápis.

 

É chocante em que posições

Com que escandalosa simplicidade

Um intelecto emprenha o outro!

Tais posições nem o Kamasutra conhece.

 

Durante esses encontros só o chá ferve.

As pessoas sentam nas cadeiras, movem os lábios.

Cada qual coloca sua própria perna uma sobre a outra.

Dessa maneira um pé toca o chão,

O outro balança livremente no ar.

Só de vez em quando alguém se levanta,

Se aproxima da janela

E pela fresta da cortina

Espia a rua.

 

In “Poemas”

Selecção, tradução e prefácio Regina Przybycien

Companhia das Letras

 

Nobel de Literatura de 1996

 

Wislawa Szymborska

(1923-2012)

Polónia

publicado por cateespero às 00:00
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