Terça-feira, 3 de Junho de 2014

Eu li... Soares de Passos

O ANJO DA HUMANIDADE

 

Era na estância cristalina e pura,

Que além do firmamento rutilante

Se ergue longe de nós, e está segura

Em milhões de colunas de diamante;

Jerusalém celeste, onde fulgura

Do eterno dia o resplendor constante,

E onde reside a glória e majestade

D’Aquele que povoa a imensidade.

 

Na mansão mais recôndita e profunda

A soberana Essência o trono encerra,

Donde a fonte de amor brota fecunda,

Os astros animando, os céus e a terra;

Um mar de luz seus penetrais circunda,

Que o próprio arcanjo deslumbrado aterra,

Luz que em triângulo ardente se condensa

Quando o Eterno os oráculos dispensa.

 

Por toda a parte o azul e as pedrarias

Na cidade divina resplandecem;

Mil arcadas de sóis, mil galerias

De brilhantes estrelas a guarnecem;

Os anjos em lustrosas jerarquias

Nas harpas d’ouro melodias tecem,

Outros em coros adejando voam

E d’aromas e canto o céu povoam.

 

Eis de repente nos umbrais divinos,

Sobre as asas pairando, um anjo entrava,

Parecendo de sítios peregrinos

Que às regiões celestes assomava;

Cruzando o empíreo, as legiões, e os hinos,

Qual rápido luzeiro perpassava,

Té que chegando ao trono do Increado,

Nos últimos degraus ficou pousado.

 

Pelos ebúrneos ombros o cabelo

Em aneladas ondas lhe caía;

A safira das asas sobre o gelo

Das roupagens reluzentes refulgia.

Mais brilhante não é, não é mais belo,

Comparado com ele, o astro do dia,

Ou a estrela que brilha quando a aurora

De purpurina luz o céu cobra.

 

Ao trono augusto levantou a frente,

Mas com as asas a toldou ansioso,

Não podendo suster o brilho ardente

Que despedia o foco luminoso.

 

A milícia dos anjos resplendente

Fixou atenta seu irmão formoso;

Os concertos pararam, e ele entanto

Assim falou entre o geral espanto:

 

«Eterno Ser, que as divinais moradas

«Enches de glória em majestoso assento,

«Fonte de vida e criações variadas,

«Que dás ao mundo poderoso alento;

«A cujo aceno tremem abaladas

«As colunas do etéreo firmamento,

«E cujo nome, que o universo entoa

«No céu, na terra, e nos abismos soa!

 

«Por teu mando supremo destinado,

«A conduzir a humana descendência,

«Desde que a mancha do cruel pecado

«A fez cair da primitiva essência:

«Venho afinal, Senhor, de teu mandado

«Dar-te conta fiel, após a ausência;

«Fazer-te ouvir da humanidade os prantos,

«E aguardar teus preceitos sacrossantos.

 

«Ordenaste-me, ó Deus, que sempre atento

«Prosseguisse na terra a lei sob’rana

«Que rege, na amplidão do firmamento

«A criação que de teu seio emana:

«Essa lei do progresso e movimento

«Tenho cumprido na família humana,

«Desde que ao mundo, a combater seu fado,

«O desterrado do éden foi lançado.

 

«Primeiro, sobre a terra esclarecendo

«Seus duvidosos passos vacilantes;

«Depois, o justo e seu baixel sustento

«Nas águas do dilúvio sussurrantes:

«De novo à terra de pavor tremendo,

«Conduzindo mais puros habitantes:

«Mais tarde junto ao berço do Messias,

«Anunciando ao mundo novos dias.

«Agora, sobre as ruínas dum império

«Outro império de novo edificando;

 

«Agora, as povoações dum hemisfério

«Sobre as doutro hemisfério derramando:

«Já do teu Verbo o divinal mistério,

«Com as santas doutrinas propagando;

«Já mostrando por fim à humanidade

«Nova luz de justiça e de verdade.

 

«Quantos velhos sofismas desterrados!

«Quantos ídolos falsos em ruínas!

«Quantos sábios triunfos alcançados!

«Quantas conquistas imortais, divinas!

«Calcando o pó dos séculos passados,

«O homem corre ao fim que lhe destinas;

«Mas ah! Senhor, no meio da tormenta

«Seu amor esmorece e desatenta.

 

«Seu valor esmorece! tantas lidas,

«Tanto lutar contínuo das idades,

«Tanto sangue e martírios, tantas vidas,

«Tantas ruínas d’impérios e cidades:

«E o homem sofre, e as gerações perdidas

«Se revolvem num mar de tempestades,

«Sem ver luzir esse fanal jucundo

«Que por teu filho prometeste ao mundo.

 

«Quantos males ainda! a lei sublime,

«A lei d’amor que derramou teu Verbo,

«Sobre a face da terra, à voz do crime,

«Sucumbe e morre por destino acerbo.

«O férreo jugo que as nações oprime,

«Os humildes abate, ergue o soberbo,

«E o rei da terra, sobre a terra escravo,

«Sofre mesquinho seu eterno agravo.

 

«Por toda a parte, em lastimoso acento,

«Se ouve gemer a humanidade aflita.

«A terra, a mãe comum, nega alimento

«Dos filhos seus a à multidão proscrita:

«Enquanto folga em vícios o opulento,

«A indigência cruel na choça habita,

«E a mãe, a mãe ao peito, em desalinho,

«Aperta morto à fome o seu filhinho.

 

«Entanto a guerra, que a ambição ateia,

«Ensanguenta as campinas e as cidades;

«A crua peste, que ninguém refreia,

«Converte as povoações em soledades;

«Destes males cruéis a terra cheia,

«Cobre-se inda de mil iniquidades;

«O vício, o crime, a corrupção devora

«A pobre humanidade, como outrora.

 

«Ao ver tanta miséria, o bom padece,

«O mau blasfema de teu nome santo,

«A voz dos inspirados esmorece,

«O futuro se envolve em negro manto...

«Eu mesmo, eu mesmo, recolhendo a prece

«Que a humanidade te dirige em pranto,

«Subi confuso ao eternal assento,

«A depor a teus pés meu desalento.»

 

Disse, e um gemido d’aflição pungente,

Semelhante a dulcíssona harmonia,

Soltou do peito, reclinando a frente

Com celeste e ideal melancolia:

Assim pendendo ao longe no ocidente,

Se reclina saudoso o astro do dia;

Assim reclina a pálida açucena,

Açoutada do vento, a fronte amena.

 

Depois, continuando: «O Deus, quem há-de

«Sondar mistérios que teu seio esconde?

«Tuas leis divinais, tua vontade

«Cumprirei sobre a terra. Eia, responde:

«Os passos da mesquinha humanidade

«Aonde os levarei, Senhor, aonde?»

Uma voz retumbou do céu radiante.

Que ao anjo respondeu, dizendo: — AVANTE!

 

In “POESIAS” – 1858 – 1ª ed. 1856

 

Soares de Passos

1826 – 1860

publicado por cateespero às 00:00
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