Sábado, 10 de Dezembro de 2016

Eu li... Rainer Maria Rilke

O HOMEM QUE LÊ

 

Eu lia há muito. Desde que esta tarde

com o seu ruído de chuva chegou às janelas.

Abstraí-me do vento lá fora:

o meu livro era difícil.

Olhei as suas páginas como rostos

que se ensombram pela profunda reflexão

e em redor da minha leitura parava o tempo. —

De repente sobre as páginas lançou-se uma luz

e em vez da tímida confusão de palavras

estava: tarde, tarde... em todas elas.

Não olho ainda para fora, mas rasgam-se já

as longas linhas, e as palavras rolam

dos seus fios, para onde elas querem.

Então sei: sobre os jardins

transbordantes, radiantes, abriram-se os céus;

o sol deve ter surgido de novo. —

E agora cai a noite de Verão, até onde a vista alcança:

o que está disperso ordena-se em poucos grupos,

obscuramente, pelos longos caminhos vão pessoas

e estranhamente longe, como se significasse algo mais,

ouve-se o pouco que ainda acontece.

 

E quando agora levantar os olhos deste livro,

nada será estranho, tudo grande.

Aí fora existe o que vivo dentro de mim

e aqui e mais além nada tem fronteiras;

apenas me entreteço mais ainda com ele

quando o meu olhar se adapta às coisas

e à grave simplicidade das multidões, —

então a terra cresce acima de si mesma.

E parece que abarca todo o céu:

a primeira estrela é como a última casa.

 

[Tradução de Maria João Costa Pereira]

 

In "O Livro das Imagens"

 

Rainer Maria Rilke

(1875-1926)

publicado por cateespero às 00:00
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