Sexta-feira, 18 de Abril de 2014

Eu li... Joaquim Manuel Magalhães

OLHOS COR DE CHICOTE

 

Fiz uma casa com traves funestas

e a casa estava toda em fogo.

À hora da tarde quando o canto dos melros

e dos tentilhões começa a enlouquecer.

Por vezes a chama fugia da casa

à espera de viragem que não vinha.

 

A distância naufraga em soro branco,

o arbusto recolhe na falésia a profecia,

na carcuma onde a poalha não tem fim.

 

Torna-se ainda mais convulso

o remorso que tomba, ouvia-se

cada um dos soluços, pisados

por todos os que passavam.

 

Um nome ganha temor, a penumbra, o cipreste,

a crepitação das coisas que dizimam.

Um jorro negro é a sua frente.

E tu dizes-me: vais deixar

de ouvir as ondas, o verão não voltará,

podes esquecer e ser feliz.

 

Mas já é tarde. Não valia a pena

cada lágrima, a casa calcinada,

o bosque ao abandono, a geada no bebedouro,

o regresso de mais um sonho.

Em todos eles se liquefazem as árvores,

o torreão afogado do caminho, o curral,

o saque da fruta por larvas de uma grade.

 

E continua a arder no quarto

que rebenta.

Tudo se acumula na representação.

Assim um sismo

retira cidades do que foi cidade.

Então o fogo, cada uma das suas homilias,

corre pelo vazio veloz de todo o fogo.

 

No corpo desmantelado chamamos

à ignorância que de dentro nos mata

o destino, a casa a arder,

a passageira ondulação final.

Incham os órgãos até à gangrena,

as mucosas apodrecem, os tendões

esmagam-se de encontro à terra

numa dança de cinza.

 

De vez em quando passam os cavalos,

vão pelo silêncio para o alto.

De cada vez os teus olhos pousam

na pradaria de silva e cana seca.

Passam os cavalos com o cavaleiro,

enredam arvoredos, o seu tropel sustém

tocas mineiras, muros derruídos, a tarde

uma canção em luta. Nada traz

nenhum aviso ao plaino ácido,

ao mundo sem açaime.

 

E chega o escuro

donde desapareceram os cavalos. A vigília

em ligadura, sufocações por trás do que não sabemos,

uma praga certa vez ouvida, incurável na recordação.

Líquidos que batem, molas que não agarram,

galhos donde evapora a seiva.

Uma casa arrasta para longe

do humano, a natureza traz-nos

ao que somos diante de coisa alguma.

Se eu tivesse uma máquina suspeita

que, de encontro ao pano da montanha

e do mar em seu redor, arrancasse

o que pelo sol fora abatido,

animais ominosos ouvir-se-iam de repente.

Assim, apenas em redor do meimendro

se debruçam os arcos rasteiros da amica.

Tanto tempo os confundi com as azedas

pelo campo desarticulado.

 

Na cremação viscosa dos telhados,

no cerco dos olhos incapazes de seguir,

no alarme do verdete da fonte,

no túnel donde escorre a fuligem,

no perigo de passeios com cadastro

perdi todo o trevo desses lábios

que sabiam prender-se com os meus.

 

In “Alta Noite em Alta Fraga”

Editora Relógio d´Água

 

Joaquim Manuel Magalhães

N.1945

publicado por cateespero às 00:00
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