Domingo, 2 de Março de 2014

Eu li... Duarte de Montalegre

POEMA DO BEIJO COMPREENDIDO

 

1 – PLATONISMO

 

Aqui tens os beijos teus que noutra altura me deste.
Testemunha seja Deus de que não me compreendeste!
Para que quero os teus beijos?
— Eles não me valem de nada...
São outros os meus desejos,
são outros, são, minha Amada!
Os teus beijos? – Coisa pouca!
Os teus beijos? – Nada são!
Nada vale a tua bôca
Só vale o teu coração...

 

2 – DRAMA

 

Meu Amor! Dá-me o perfume

dos teus lábios de rubim!
Num beijo, Amor, se resume

nosso desejo sem Fim...

Meu Amor! Dá-me o veludo

dos teus afagos de seda!
Em nosso amor, tudo, tudo

se resolve em labareda...

Meu Amor! Dá-me a certeza

do teu Anseio Maior!

Tuas palavras são reza

de saudade, ó meu Amor ...

 

3 – PROJECTO

 

Amanhã, quando chegar,

meu Amor, ao pé de ti,

longamente hei-de beijar

os teus lábios de rubi...

Quando estiver, amanhã,

junto a ti, nos meus desejos,

nos teus lábios de romã

hei-de dar milhões de beijos...

Quando, amanhã, estender

minha mão no teu regaço,

o teu beijo de Mulher

acalmará meu cansaço...

 

4 – ANSEIO 

 

Um dia seremos nós,

meu Amor, numa unidade!

E ouviremos a voz

meiga e doce da saudade...

Havemos de ser um dia

um só apenas, Amor!

E nessa etéria harmonia

pode vir seja o que fôr

que não há-de, não, vencer

nossos divinos desejos...

Dá-me, teus lábios, Mulher!

Meu Amor! Dá-me mil beijos!...

 

5 – ANTES QUE, VENHA A MORTE

 

Deixa que beije os teus olhos!

Deixa que os beije, sem fim!

Mar oloroso, sem escolhos,

são teus lábios de rubim

Deixa que beije teus lábios,

os lábios do meu Desejo.

Os teus olhos meigos... abre-os,

para que os feche num beijo!

E quando teus lábios doces

colados forem aos meus,

será como se tu fôsses,

ó meu Amor, o meu Deus!

Teus olhos deixa beijar-me

e teus lábios entender-me,

– antes que clamem alarme

as minhas ânsias de verme!...

 

6 – NUDEZ

 

Deixa que te ame sem veste,

nessa nudez de ansiedade!

Meu Amor! Não me entendeste!

Meu Amor! Tenho saudade!

Dá-me os teus seios de alvura

ao afago dos meus dedos!

Será meu gesto a futura

mensagem dos teus segredos!

Abre, Amor, aos meus anseios

O teu mundo de mistério...

Não tenhas vagos receios

Beija meu corpo! – E fere-o!

 

7 – DESVAIRAMENTO

 

Abre aos meus lábios os teus

e tua bôca abre a minha!

Deixa que te ame sem véus...

Deixa que te ame, Rainha...

Deixa que o mundo eu devasse

das ancas da tua dor!

Num beijo à terra o sol dá-se...

Sejamos como eles, Amor!

Chega ao meu corpo teus seios,

meu Amor, deixa esmagá-los...

Eu bem sei que os teus anseios

querem os nossos abalos!

Meu Amor! Cinge meu peito,

de nós faz um corpo só!

– Que um dia, no mesmo leito,

lodo seremos, – e pó!...

 

8 – CULMINAÇÃO

 

Olhos fechados, sem luz;

bôca cerrada, sem fala;

-- só a vida nos conduz...

Amor! Não queiras pará-la!

Eu te comungo sem fim,

no mesmo anseio da hora!

Amor! Se existes em mim,

em ti existo, Senhora !...

E mais suave e mais lento

nosso Desejo Maior!

– Sou momento em teu momento...

És momento, meu Amor!...

 

9 – ANTES DO REGRESSO

 

Meu Amor! Chega-te a mim!

Meu Amor! Tenho. receio!

Deixa que morda o rubim

que se aninha no teu seio...

Rasga meu corpo com teus

loucos, infindos Desejos!

Cola teus lábios aos meus

na carícia de mil beijos...

Minha mão aventureira

vai desbravando segredos.

Meu Amor! És a primeira

mulher que sabem meu dedos!

Embalemo-nos em suave,

em suavíssima harmonia.

Meu Amor, és trilo de ave

e és a luz de meu dia...

E quando, enfim, teu suspiro

me disser que nos chegámos,

eu já não vivo, – deliro!

– Tens sonhos? Meu Amor: dá-mos!...

 

10 – TRANSCENDÊNCIA

 

Mas a vida não se cinge

à hora do nosso amor...

Finalidades atinge

de uma projecção maior.

Se por acaso parasse

a vida, nesse minuto,

por mais, Amor, que to amasse,

tudo seria de luto!

É maior a nossa vida,

maior que os nossos desejos...

E por mais incompreendida

que seja a hora dos beijos

ela é bela, porque é belo

da vida o doce florir...

– E a luz do Setestrêlo

Há-de brilhar, no Porvir!

 

In “Altura Cadernos de Poesia” I

Casa do Castelo, Editora, Coimbra – Fevereiro de 1945

 

Duarte de Montalegre **

1920 – 2010

 

** Pseudónimo de J. V. de Pina Martins 

publicado por cateespero às 00:00
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