Quinta-feira, 3 de Janeiro de 2013

Eu li... Cruz e Sousa

OLHOS DO SONHO

 

Certa noite soturna, solitária,

Vi uns olhos estranhos que surgiam

Do fundo horror da terra funerária

Onde as visões sonâmbulas dormiam...

 

Nunca da terra neste leito raso

Com meus olhos mortais, alucinados...

Nunca tais olhos divisei acaso

Outros olhos eu vi transfigurados.

 

A luz que os revestia e alimentava

Tinha o fulgor das ardentias vagas,

Um demónio noctâmbulo espiava

De dentro deles como de ígneas plagas.

 

E os olhos caminhavam pela treva

Maravilhosos e fosforescentes...

Enquanto eu ia como um ser que leva

Pesadelos fantásticos, trementes.

 

Na treva só os olhos, muito abertos,

Seguiam para mim com majestade,

Um sentimento de cruéis desertos

Me apunhalava com atrocidade.

 

Só os olhos eu via, só os olhos

Nas cavernas da treva destacando:

Faróis de augúrio nos ferais escolhos,

Sempre, tenazes, para mim olhando...

 

Sempre tenazes para mim, tenazes,

Sem pavor e sem medo, resolutos,

Olhos de tigres e chacais vorazes

No instante dos assaltos mais astutos.

 

Só os olhos eu via! -- o corpo todo

Se confundia com o negror em volta...

Ó alucinações fundas do lodo

Carnal, surgindo em tenebrosa escolta!

 

E os olhos me seguiam sem descanso,

Suma perseguição de atras voragens,

Nos narcotismos dos venenos mansos,

Como dois mudos e sinistros pajens.

 

E nessa noite, em todo meu percurso,

Nas voltas vagas, vãs e vacilantes

Do meu caminho, esses dois olhos de urso

Lá estavam tenazes e constantes.

 

Lá estavam eles, fixamente eles,

Quietos, tranquilos, calmos e medonhos...

Ah! Quem jamais penetrará naqueles

Olhos estranhos dos eternos sonhos!

 

 

Janeiro de 1897

 

In “Faróis”

 

Cruz e Sousa

(Poeta Brasileiro)

1861 – 1898

publicado por cateespero às 00:00
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