Quinta-feira, 28 de Junho de 2012

Eu li... José Simões Dias

TEU LENÇO

 

O lenço que tu me deste

Trago – o sempre no meu seio,

Com medo que desconfiem

Donde este lenço me veio.

 

As letras que lá bordaste

São feitas do teu cabelo;

Por mais que o veja e reveja,

Nunca me farto de vê-lo.

 

De noite dorme comigo,

De dia trago – o no seio,

Com medo que os outro saibam

Donde este lenço me veio.

 

Alvo, da cor da açucena,

Tem um ramo em cada canto;

Os ramos dizem saudade,

Por isso lhe quero tanto.

 

O lenço que tu me deste

Tem dois corações no meio;

Só tu no mundo é que sabes

Donde este lenço veio.

 

Todo ele é de cambraia,

O lenço que me ofereceste;

Parece que inda estou vendo

A agulha com que o bordaste.

 

Para o ver até me fecho

No meu quarto com receio,

Não venha alguém perguntar-me

Donde este lenço me veio.

 

A cismar neste bordado

Não sei até no que penso;

Os olhos trago – os já gastos

De tanto olhar para o lenço.

 

Com receio de perdê-lo

Guardo – o sempre no meu seio,

De modo que ninguém saiba

Donde este lenço me veio.

 

Nas letras entrelaçadas

Vem o meu nome e o teu;

Bendito seja o teu nome

Que se enlaçou com o meu!

 

Por isso o trago escondido,

Bem guardado no meu seio,

Com medo que me perguntem

Donde este lenço me veio.

 

Quanto mais me ponho a vê – lo,

Mais este amor se renova;

No dia do meu enterro

Quero levá-lo p'ra cova.

 

Vem pô-lo sobre o meu peito,

Que eu hei-de tê-lo no seio;

Mas nunca digas ao mundo

Donde este lenço me veio.

 

 

In "Peninsulares"

 

José Simões Dias

1844 – 1899

 

publicado por cateespero às 00:00
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