Terça-feira, 30 de Novembro de 2010

Eu li... Irene Lisboa

JEITO DE ESCREVER

 

Não sei que diga.

E a quem o dizer?

Não sei que pense.

Nada jamais soube.

 

Nem de mim, nem dos outros.

Nem do tempo, do céu e da terra, das coisas...

Seja do que for ou do que fosse.

Não sei que diga, não sei que pense.

 

Oiço os ralos queixosos, arrastados.

Ralos serão?

Horas da noite.

Noite começada ou adiantada, noite.

Como é bonito escrever!

 

Com este longo aparo, bonitas as letras e o gesto - o jeito.

Ao acaso, sem âncora, vago no tempo.

No tempo vago...

Ele vago e eu sem amparo.

Piam pássaros, trespassam o luto do espaço, este sereno luto das

horas. Mortas!

 

E por mais não ter que relatar me cerro.

Expressão antiga, epistolar: me cerro.

Tão grato é o velho, inopinado e novo.

Me cerro!

 

Assim: uma das mãos no papel, dedos fincados,

solta a outra, de pena expectante.

Uma que agarra, a outra que espera...

Ó ilusão!

E tudo acabou, acaba.

Para quê a busca das coisas novas, à toa e à roda?

 

Silêncio.

Nem pássaros já, noite morta.

Me cerro.

Ó minha derradeira composição! Do não, do nem, do nada, da ausência e

solidão.

 

Da indiferença.

Quero eu que o seja! da indiferença ilimitada.

Noite vasta e contínua, caminha, caminha.

Alonga-te.

A ribeira acordou.

 

 

In “Líricas Portuguesas”

Organização de Jorge Sena

Porto Editora

 

Irene Lisboa

1892 – 1958

 

publicado por cateespero às 00:00
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1 comentário:
De Thefas a 4 de Dezembro de 2010 às 02:58


O MUNDO POÉTICO É REALMENTE MÁGICO! LINDO!

BEIJOS THEFAS

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