Sexta-feira, 30 de Julho de 2010

Eu li... João Cruz e Sousa

TRISTEZA DO INFINITO

 

Anda em mim, soturnamente, 

uma tristeza ociosa, 

sem objetivo, latente, 

vaga, indecisa, medrosa.

 

Como ave torva e sem rumo, 

ondula, vagueia, oscila 

e sobe em nuvens de fumo 

e na minh'alma se asila.

 

Uma tristeza que eu, mudo, 

fico nela meditando 

e meditando, por tudo 

e em toda a parte sonhando.

 

Tristeza de não sei donde,

de não sei quando nem como... 

flor mortal, que dentro esconde 

sementes de um mago pomo.

 

Dessas tristezas incertas, 

esparsas, indefinidas... 

como almas vagas, desertas 

no rumo eterno das vidas.

 

Tristeza sem causa forte, 

diversa de outras tristezas, 

nem da vida nem da morte 

gerada nas correntezas...

 

Tristeza de outros espaços,

de outros céus, de outras esferas,

de outros límpidos abraços, 

de outras castas primaveras.

 

Dessas tristezas que vagam 

com volúpias tão sombrias 

que as nossas almas alagam 

de estranhas melancolias.

 

Dessas tristezas sem fundo, 

sem origens prolongadas, 

sem saudades deste mundo, 

sem noites, sem alvoradas.

 

Que principiam no sonho 

e acabam na Realidade, 

através do mar tristonho 

desta absurda Imensidade.

 

Certa tristeza indizível, 

abstrata, como se fosse 

a grande alma do Sensível 

magoada, mística, doce.

 

Ah! tristeza imponderável,

abismo, mistério, aflito, 

torturante, formidável... 

ah! tristeza do Infinito!

 

 

João Cruz e Sousa

(Poeta brasileiro alcunhado Dante Negro e Cisne Negro)

1861 1898

 

 

Gentilmente remetido por minha amiga Therezinha de Souza

 

publicado por cateespero às 00:00
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1 comentário:
De Thefas a 1 de Agosto de 2010 às 04:15

Que lindo! esse poema me encanta ele descreve bem as tristezas que por vezes carregamos!
Beijos Théfas

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