Quinta-feira, 30 de Março de 2017

Eu li... Jacinta Passos

INCERTEZA

 

Em meu olhar se espelha

a sombra interior de incerteza angustiante.

E em minha alma floresce, como rosa vermelha

dum vermelho gritante,

como o clangor clarim,

esta angústia que vive a vibrar dentro em mim.

É a minha vida um longo e ansioso esperar,

num amor que há de vir.

Amor - prazer que é dor e sofrer que é gozar -

Amor que tudo dá sem nada nos pedir,

e que, às vezes, num rápido segundo,

resume a glória toda e toda a ânsia do mundo.

Mas depois deste amor, o que virá? O tédio

insípido e tristonho,

desenganos sem cura e dores sem remédio.

Com a posse dum bem, o desfolhar dum sonho...

Vale mais, muito mais,

desejar sempre um bem, sem possui-lo jamais.

Oh! não. O coração

não se cansa de amar se sabe querer bem.

- Ter para o erro o perdão,

renunciar a si mesmo e viver para alguém -

E se um motivo qualquer,

imperioso e fatal, o sonho desfizer?

Então eu saberei bendizer, comovida,

o amor que já passou,

deixando uma doçura amarga em minha vida.

Quando o sonho murchar,

a esperança está finda,

mas dentro d'alma, fica uma saudade linda.

 

In Revista "O Malho"

Ano XXXV - nº 185 - 17.Dez.1936

 

Jacinta Passos

(1914-1973)

Brasil

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Segunda-feira, 20 de Março de 2017

Eu li... Laura Riding

FIM DO MUNDO

 

O tímpano está no fim.

A íris ficou transparente.

O sentido se desgasta.

Até o sentido está transparente.

A pressa alcança a pressa.

A terra arredonda a terra.

A mente encosta a mente.

Claro espectáculo: onde está o olho?

 

Tudo perdido, nenhum perigo

Força a mão heróica.

Corpos não se opõem mais

Um contra o outro. O mundo acabado

É semelhança em toda parte.

Caem os nomes do contraste

No centro que se expande.

O mar seco estende o universal.

 

Nem súplica nem negativa

Perturbam a evidência geral.

A lógica tem lógica, e eles ficam

Trancados nos braços um do outro,

Senão seriam loucos,

Com tudo perdido e nada que prove

Que até o nada sobrevive ao amor.

 

In "Mindscapes"

Selecção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes

Iluminuras - 2004

 

Laura Riding **

(1901-1991)

EUA

 

** Pseudónimo de Laura Reichenthal

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Sexta-feira, 10 de Março de 2017

Eu li... Carlos Drummont de Andrade

CANÇÃO PARA ALBUM DE MOÇA

 

Bom-dia: eu dizia à moça

que de longe me sorria.

Bom-dia mas da distância

ela nem me respondia.

Em vão a fala dos olhos

e dos braços repetia

bom-dia à moça que estava,

de noite como de dia,

bem longe de meu poder

e de meu pobre bom-dia.

Bom-dia sempre: se acaso

a resposta vier fria

ou tarde vier, contudo

esperarei o bom-dia.

E sobre casas compactas

sobre o vale e a serrania,

irei repetindo manso

a qualquer hora: bom-dia.

O tempo é talvez ingrato

e funda a melancolia

para que se justifique

o meu absurdo bom-dia.

Nem a moça põe reparo

não sente, não desconfia

o que há de carinho preso

no cerne deste bom-dia.

Bom-dia: repito à tarde,

à meia-noite: bom-dia.

E de madrugada vou

pintando a cor de meu dia

que a moça possa encontrá-lo

azul e rosa: bom-dia.

Bom-dia: apenas um eco na mata

(mas quem diria)

decifra minha mensagem,

deseja bom o meu dia.

A moça, sorrindo ao longe

não sente, nessa alegria,

o que há de rude também

no clarão deste bom-dia.

De triste, túrbido, inquieto,

noite que se denuncia

e vai errante, sem fogos,

na mais louca nostalgia.

Ah, se um dia respondesses

ao meu bom-dia: bom-dia!

Como a noite se mudara

no mais cristalino dia.

 

In “Obra Poética” – 3.º vol.

 

Carlos Drummont de Andrade

(1902-1987)

Brasil

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Quinta-feira, 2 de Março de 2017

Eu li... Juan Ramón Jiménez

COMO, MORTE, TEMER-TE?

 

Como, morte, temer-te?

Não estás aqui comigo, a trabalhar?

Não te toco em meus olhos; não me dizes

que não sabes de nada, que és vazia,

inconsciente e pacífica? Não gozas,

comigo, tudo: glória, solidão,

amor, até tuas entranhas?

Não me estás a sustentar,

morte, de pé, a vida?

Não te levo e trago, cego,

como teu guia? Não repetes

com tua boca passiva

o que quero que digas? Não suportas,

escrava, a gentileza com que te obrigo?

Que verás, que dirás,aonde irás

sem mim? Não serei eu,

morte, tua morte, a quem tu, morte,

deves temer, mimar, amar?

 

In "Antologia Poética"

Tradução de José Bento

 

Juan Ramón Jiménez

(1881-1958)

Espanha

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