Terça-feira, 30 de Agosto de 2016

Eu li... Adalgisa Nery

OS CEGOS

 

Não vemos o mostrador do Tempo

Assim como não vemos

Uma forma de vida fundir-se noutra.

Não vemos a vida caminhar sobre nossa origem

Construindo muralhas contra nós mesmos.

Não ouvimos o cântico de guerra

Festejando nossos fracassos

Registrados nas páginas do pensamento.

 

A cada hora vemos e sentimos menos

O mostrador do Tempo.

Somos mutações desordenadas

Multiplicando-se nos porões fétidos

De galeras negras, abandonadas.

 

In “Erosão” - 1973

 

Adalgisa Nery

(1905-1980)

Brasil

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Sábado, 20 de Agosto de 2016

Eu li... Tiago Araújo

SJ-01

 

enquanto dormias coloquei o teu corpo sobre o mar

e atravessei o quarto e um pequeno-almoço de laranjas junto à janela

e de jornais pelo chão

pelo corredor

enquanto o teu corpo continuava a boiar

sobre a cama.

os órgãos

mantêm o corpo na linha espelhada da superfície

no equilíbrio entre os pulmões que querem regressar ao ar de

que são feitos e o coração

que é de água e quer mergulhar

arrastando tudo para as profundezas do mar e da consciência.

enquanto dormias despenharam-se

três cometas sobre o estábulo do rio

revolvendo as águas

(talvez fosse eu que boiasse e tu que me

observasses do cimo das águas e através da linha de mercúrio).

e resolvi partir

para fundar outra cidade.

uma intuitiva lei de equivalências transporta-me

do ondular do teu peito para a respiração do mar

no teu corpo adormecido.

onde o nosso filho, que é ainda apenas

um plano feito ao jantar

com os pratos já vazios e os talheres faiscando prata entre restos de comida

cresce erguendo abóbadas sobre o lago em que se banha

dormindo no equilíbrio das águas.

são os teus pulmões que nos têm mantido à tona,

na superfície do espelho que

não pertence a nenhum dos mundos a que serve de barreira

de refúgio.

enquanto dormias regressei

para te ver dormir.

 

In “Fórmulas”

Quasi Edições - 2004

 

Tiago Araújo

(N. 1973)

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Quarta-feira, 10 de Agosto de 2016

Eu li... Wislawa Szymborska

OPINIÃO SOBRE A PORNOGRAFIA

 

Não há devassidão maior que o pensamento.

Essa diabrura prolifera como erva daninha

Num canteiro demarcado para margaridas.

 

Para aqueles que pensam, nada é sagrado.

O topete de chamar as coisas pelos nomes,

A dissolução da análise, a impudicícia da síntese,

A perseguição selvagem e debochada dos fatos nus,

O tatear indecente dos temas delicados,

A desova das ideias - é disso que eles gostam.

 

À luz do dia ou na escuridão da noite

Se juntam aos pares, triângulos e círculos.

Pouco importa ali o sexo e a idade dos parceiros.

Seus olhos brilham, as faces queimam.

Um amigo desvirtua o outro.

Filhas depravadas degeneram o pai.

O irmão leva a irmã mais nova para o mau caminho.

 

Preferem o sabor de outros frutos

Da árvore proibida do conhecimento

Do que os traseiros rosados das revistas ilustradas,

Toda essa pornografia na verdade simplória.

Os livros que divertem não têm figuras.

A única variedade são certas frases

Marcadas com a unha ou com lápis.

 

É chocante em que posições

Com que escandalosa simplicidade

Um intelecto emprenha o outro!

Tais posições nem o Kamasutra conhece.

 

Durante esses encontros só o chá ferve.

As pessoas sentam nas cadeiras, movem os lábios.

Cada qual coloca sua própria perna uma sobre a outra.

Dessa maneira um pé toca o chão,

O outro balança livremente no ar.

Só de vez em quando alguém se levanta,

Se aproxima da janela

E pela fresta da cortina

Espia a rua.

 

In “Poemas”

Selecção, tradução e prefácio Regina Przybycien

Companhia das Letras

 

Nobel de Literatura de 1996

 

Wislawa Szymborska

(1923-2012)

Polónia

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Segunda-feira, 1 de Agosto de 2016

Eu li... António Botto

TRISTES CANTIGAS DE AMOR

 

Meus olhos que por alguém

Deram lágrimas sem fim,

Já não choram por ninguém

– Basta que chorem por mim.

Arrependidos e olhando

A vida como ela é,

Meus olhos vão conquistando

Mais fadiga e menos fé.

Sempre cheios de amargura!

Mas se as coisas são assim,

Chorar alguém – que loucura!

– Basta que eu chore por mim.

 

Cantiga 1

 

As Canções de António Botto

Ed. Presença – Lisboa – 1980

 

In “Ler Por Gosto”

Areal Editores

 

António Botto

(1897-1959)

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