Domingo, 28 de Setembro de 2014

Eu li... Nelly Sachcs

SILÊNCIO

 

Escuro ciciar do vento

na seara

A vítima pronta ao sofrimento

As raízes estão caladas

mas as espigas

sabem muitas línguas maternas -

 

E o sal no mar

chora na distância

A pedra é uma existência de fogo

e os elementos puxam pelas cadias

pra a união

quando a escrita espectral das nuvens

recolhe imagens primevas

 

Mistério na fronteira da morte

«Põe o dedo nos lábios:

Silêncio Silêncio Silêncio»

 

In “Poemas de Nelly Sachs”

Versão portuguesa e introdução de Paulo Quintela

Editora Portugália

 

Nelly Sachcs

(Poetisa Alemã)

1891 – 1970

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Terça-feira, 23 de Setembro de 2014

Eu li... Fiama Hasse Pais Brandão

EPÍSTOLA PARA OS MEUS MEDOS

 

Sois: os sons roucos, a espera vã, uma perdida imagem.

O coração suspende o seu hálito e os lábios tremem

sinto-vos, vindes ao rés da terra, como ventos baixos,

poisais no peitoril. Sois muito antigos e jovens,

da infância em que por vós chorava encostada a um rosto.

Que saudade eu tenho, ó escuridão no poço,

ó rastejar de víboras nos caniços, ó vespa

que, como eu, degustaste o figo úbere.

Depois, mundo maior foi a presença e a ausência,

a alegria e as dores de outros que não eu.

E um dia, no alto da catedral de Gaudí,

chorei de horror da Queda, como os caídos anjos.

 

In “Epístolas e Memorandos”

Editora Relógio d'Água - 1996

 

Fiama Hasse Pais Brandão

1938 – 2007

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Quinta-feira, 18 de Setembro de 2014

Eu li... Sophia de Mello Breyner Andresen

PRAIA

 

Os pinheiros gemem quando passa o vento

O sol bate no chão e as pedras ardem.

 

Longe caminham os deuses fantásticos do mar

Brancos de sal e brilhantes como peixes.

 

Pássaros selvagens de repente,

Atirados contra a luz como pedradas,

Sobem e morrem no céu verticalmente

E o seu corpo é tomado nos espaços.

 

As ondas marram quebrando contra a luz

A sua fronte ornada de colunas.

 

E ema antiquíssima nostalgia de ser mastro

Baloiça nos pinheiros.

 

In “Coral“

Editora Caminho

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

1919 – 2004

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Sábado, 13 de Setembro de 2014

Eu li... Florbela Espanca

TORTURA

 

Tirar dentro do peito a Emoção,

A lúcida Verdade, o Sentimento!

– E ser, depois de vir do coração,

Um punhado de cinza esparso ao vento!...

 

Sonhar um verso de alto pensamento,

E puro como um ritmo de oração!

– E ser, depois de vir de coração,

O pó, o nada, o sonho dum momento...

 

São assim ocos, rudes, os meus versos:

Rimas perdidas, vendavais dispersos,

Com que eu iludo os outros, com que minto!

 

Quem me dera encontrar o verso puro,

O verso altivo e forte, estranho e duro,

Que dissesse, a chorar, isto que sinto! ! 

 

Livro de Mágoas – 1919

 

In “Sonetos de Florbela Espanca ”

Colecção Autores Portugueses de Ontem

Edição da Livraria Estante – Junho.1988

 

Florbela Espanca

1894 – 1930

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Segunda-feira, 8 de Setembro de 2014

Eu li... Ana Cristina Cesar

QUE DESLIZE

 

Onde seus olhos estão

as lupas desistem.

O túnel corre, interminável

pouco negro sem quebra

de estações.

Os passageiros nada adivinham.

Deixam correr

Não ficam negros

Deslizam na borracha

carinho discreto

pelo cansaço

que apenas se recosta

contra a transparente

escuridão.

 

In ”A teus pés”

Editora Brasiliense – São Paulo

 

Ana Cristina Cesar

(Poeta Brasileira)

1952 – 1983 

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Quarta-feira, 3 de Setembro de 2014

Eu li... Manuela Amaral

ODE À TRISTEZA

 

Eu canto esta alegria

(entristecida)

de tanto te lembrar

e ser saudade

E a minha voz é forte

timbrada de dias

e distâncias

com as palavras todas mastigadas

(E se tristeza tenho

que me reste

não me julgues parada

ou indecisa

Cristalizei meus olhos de chorarem

e o meu olhar é firme,

certeiro ao teu encontro)

Eu canto esta alegria

de segredar-me ao vento

e seguir viagem

em direcção de ti

leve

impensada

informe

e num fluir de aragem

ser transformada em ar

Pedaço que respiras.

E nos meus dedos mansos

-veludos que pisaram

teu corpo em movimento-

vou amarrar o tempo

as letras do teu nome

E depois morrer.

Eu canto esta alegria

de saber-te

 

In “Esta Coisa Quase Vida”

Editora Fora do Texto

 

Manuela Amaral

1934 – 1995

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