Segunda-feira, 28 de Julho de 2014

Eu li... Fernando Pessoa

EROS E PSIQUE

 

Conta a lenda que dormia 
Uma Princesa encantada 
A quem só despertaria 
Um Infante, que viria 
De além do muro da estrada.  

 

Ele tinha que, tentado, 
Vencer o mal e o bem, 
Antes que, já libertado, 
Deixasse o caminho errado 
Por o que à Princesa vem.  

 

A Princesa Adormecida, 
Se espera, dormindo espera, 
Sonha em morte a sua vida, 
E orna-lhe a fronte esquecida, 
Verde, uma grinalda de hera.  

 

Longe o Infante, esforçado, 
Sem saber que intuito tem, 
Rompe o caminho fadado, 
Ele dela é ignorado, 
Ela para ele é ninguém.  

 

Mas cada um cumpre o Destino – 
Ela dormindo encantada, 
Ele buscando-a sem tino 
Pelo processo divino 
Que faz existir a estrada.  

 

E, se bem que seja obscuro 
Tudo pela estrada fora, 
E falso, ele vem seguro, 
E vencendo estrada e muro, 
Chega onde em sono ela mora,  

 

E, inda tonto do que houvera, 
À cabeça, em maresia, 
Ergue a mão, e encontra hera, 
E vê que ele mesmo era 
A Princesa que dormia.  

 

In “Presença nº. 41 – 42, Maio de 1934”

Poesias – Edições Ática

 

Fernando Pessoa

1888 – 1935

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Quarta-feira, 23 de Julho de 2014

Eu li... Alexandre O'Neill

O BEIJO

 

Congresso de gaivotas neste céu

Como uma tampa azul cobrindo o Tejo.

Querela de aves, pios, escarcéu.

Ainda palpitante voa um beijo.

 

Donde teria vindo! (Não é meu...)

De algum quarto perdido no desejo?

De algum jovem amor que recebeu

Mandado de captura ou de despejo?

 

É uma ave estranha: colorida,

Vai batendo como a própria vida,

Um coração vermelho pelo ar.

 

E é a força sem fim de duas bocas,

De duas bocas que se juntam, loucas!

De inveja as gaivotas a gritar...

 

In 'No Reino da Dinamarca'

Editora Relógio D'Água

 

Alexandre O'Neill

1924 — 1986

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Sexta-feira, 18 de Julho de 2014

Eu li... Sebastião da Gama

CÉU

 

Tenho uma sede imensa,

mas não é de água…

 

Tenho uma sede imensa de beber

os soluços do Sol quando declina,

as carícias azuis do Luar de Agosto,

os tons rosa da Tarde que se fina…

 

É que eu seria poeta, se os bebesse…

Não mais seria o cego de olhos limpos;

esse que viu a água e a não tocou,

pelo estranho pudor da sua boca

que um dia blasfemou.

 

E, se eu pudesse beber

esses longes de mim que vejo e quero,

em espasmos havia de os mudar

e, num desejo nunca satisfeito,

iria possuir-te, ó Mar!

 

Havia de cair, num beijo sobre ti;

despir as minhas vestes de serrano,

tirar de mim aquilo que é humano,

E confundir-me em ti.

 

Gritem depois, embora, que eu morri;

alegre o Mundo o alívio do meu peso;

- que um dia o Sol há-de surgir mais cedo

e o bom menino de olhos azuis,

de quem sou fraco arremedo,

há-de nascer, ó Mar, da nossa noite de Amor!

 

E tu, Menina que eu chamava,

Menina que eu chamava e encontrei

Mas abrasada no Amor divino

- tu hás-de ver então que o Céu que idealizas

É o olhar azul desse menino.

 

In “Serra - Mãe”

Ed. Ática – 1957

 

Sebastião da Gama

1924 – 1952

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Domingo, 13 de Julho de 2014

Eu li... Antero Quental

MORS – AMOR

 

                             (A Luiz de Magalhães)

 

Esse negro corcel, cujas passadas
Escuto em sonhos, quando a sombra desce,
E, passando a galope, me aparece
Da noite nas fantásticas estradas,


Donde vem ele? Que regiões sagradas
E terríveis cruzou, que assim parece
Tenebroso e sublime, e lhe estremece
Não sei que horror nas crinas agitadas?


Um cavaleiro de expressão potente,
Formidável, mas plácido, no porte,
Vestido de armadura reluzente,


Cavalga a fera estranha sem temor:
E o corcel negro diz: ”Eu sou a Morte!”
Responde o cavaleiro: “ Eu sou o Amor!”

 

In “Sonetos Completos”

Prefácio de Oliveira Martins

Publicações Anagrama – 1980

 

Antero Quental

1842 – 1891

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Terça-feira, 8 de Julho de 2014

Eu li... Eugénio de Andrade

OS AMANTES SEM DINHEIRO

 

Tinham o rosto aberto a quem passava.

Tinham lendas e mitos

e frio no coração.

Tinham jardins onde a lua passeava

de mãos dadas com a água

e um anjo de pedra por irmão.

 

Tinham como toda a gente

o milagre de cada dia

escorrendo pelos telhados;

e olhos de oiro

onde ardiam

os sonhos mais tresmalhados.

 

Tinham fome e sede como os bichos,

e silêncio

à roda dos seus passos.

Mas a cada gesto que faziam

um pássaro nascia dos seus dedos

e deslumbrado penetrava nos espaços.

 

In “Antologia Breve”

Editora Limiar – Outubro.1985

 

Eugénio de Andrade

1923 – 2005

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Quinta-feira, 3 de Julho de 2014

Eu li... Maria Alberta Menéres

A DANÇA DO B

 

Um dia, o boi, o burro, o besouro,

O borrego, o búfalo e a borboleta

Repararam que os seus nomes

Começavam todos por b.

Disseram ao mesmo tempo:

Que bonito!

 

O bacalhau, o berbigão, o besugo

E o búzio, lá no mar,

Repararam que os seus nomes

Também começavam por b.

Disseram todos assim:

Que bonito!

 

Veio logo uma baleia de longe,

A gritar. Esperem,

Esperem aí por mim!

 

In “Um Peixe no Ar”

Plátano Editora - 1977

 

Maria Alberta Menéres

N. 1930

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