Sexta-feira, 28 de Março de 2014

Eu li... Noel de Arriaga

INTERIOR

 

Chora o menino a quem morreu o Pai,

Porque o Par do menino já chorou,

Naquela tarde — Há quanto tempo vai! —

Em que morreu o Avô.

 

— Morreste, Pai?

— Filho, morri.

— Sofreste, Pai?

— Filho, sofri.

 

— E ouve, Paizinho, a morte que tal é?

— Meu filho, a morte «não é».

 

Chora o menino, fecham-se as janelas,

Mas em compensação

Há mais claridade nas estrelas!

 

— Morreste, Pai?

— Filho, morri.

— Sofreste, Pai?

— Filho, sofri.

 

— E ouve, Paizinho, a morte que tal é?

— Meu filho, a morte «não é».

 

Tem o menino uma expressão aflita!

 

Numa cadência abstrata,

Sôbre uma salva de prata,

Deitam cartões de vizita

As pessoas importantes,

Pois logo naquele dia

Vieram os representantes

Da Junta de Freguezia.

 

São quatro horas — tao cedo!

Nem uma réstea de sol!

E o menino sente medo

De levantar o lençol!

 

Já duas vezes tentou,

E vai tentá-lo outra vez,

Mas consegue ver-lhe só

Como tem hirtos os pés!

 

Desiste, não tem coragem,

Uma invisível barragem

Não o deixa prosseguir —

 

Que triste Alcácer-Quibir!

 

Quem lhe dera expulsar aquela gente

Que apenas por vício

Vem fazer oficio

De corpo presente...

 

Por cima dos balcões,

Tantos remédios, tantas injecções,

Tantas ventosas, tantos cataplasmas,

Ao menino parecem-lhe fantasmas!

 

— Morreste, Pai?

— Filho, morri.

— Sofreste, Pai?

— Filho, sofri.

 

— E ouve, Paizinho, a morte que tal é?

— Meu filho, a morte «não é».

 

In “Altura Cadernos de Poesia” I

Casa do Castelo, Editora, Coimbra – Fevereiro de 1945

 

Noel de Arriaga
N. 1918

 

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Domingo, 23 de Março de 2014

Eu li... António Gedeão

POEMA ÉPICO

 

O rapagão da camisola vermelha sacode a melena da testa

e retesa os braços num bocejo como um jovem leão voluptuoso.

Dorme a sesta

o involuntário ocioso.

 

A filha do alfaiate atirou a tesoura e o dedal pela janela

e sumiu-se na noite escura do mundo.

Quis respirar mais fundo

e isso de ser coitada é lá com ela.

 

O homem de barba por fazer conta os filhos e as moedas

e balbucia qualquer coisa num tom inexpressivo e roufenho.

Súbito chamejam-lhe os olhos como labaredas:

- Eu já venho!

 

O da face doente,

o que sofre por tudo e por nada, sem querer,

abana a cabeça negativamente:

- Isto não pode ser! Isto não pode ser!

 

Sentados às soleiras das portas,

mordendo a língua na tarefa inglória,

com letras gordas e por linhas tortas

vão redigindo a História.

 

In “Máquinas de Fogo” – 1961

Tip. da Atlântida Editora

 

António Gedeão **

1906 – 1997 

 

**Pseudónimo de Rómulo Vasco da Gama de Carvalho

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Terça-feira, 18 de Março de 2014

Eu li... Adolfo Simões Müller

O MISTÉRIO DA PALAVRA

Porque será que uma palavra aflora
correspondendo logo ao nosso apelo,
com a medida justa, o justo emprego,
enquanto noutras vezes se demora
(rimmel, bâton, um jeito no cabelo...)
e chega em voo cego de morcego?

Porque será que uma palavra quase
vai buscar outra dentre a multidão,
e esta segunda, uma terceira e quarta,
e assim nasce de súbito, uma frase,
um belo verso, a quadra ou a canção,
a sentença de morte, a tua carta?

Porque será que uma palavra, impávida,
resiste aos séculos e fica jovem,
ou morre (cancro, enfarte, dor reumática),
enquanto outra, novinha, surge grávida,
e aos nove meses os filhinhos chovem
que é um louvar a Deus e à gramática?

Porque será que a rima atrai a rima,
e a rima nova é como o vinho novo
que salta e espuma e baila na garganta?
E outra rima! Outras rimas! A vindima
das palavras não pára... E, no renovo,
o poema é estrela que alumia e canta!

Porquê esta mistério, Poesia?
És tal e qual a electricidade:
existe mas nem sempre a gente a vê.
Porque foges um ano e mais um dia
e voltas, alta noite, claridade?
Porquê? Porque será? Porquê? Porquê?

Adolfo Simões Müller

1909 – 1989

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Quinta-feira, 13 de Março de 2014

Eu li... Miguel Torga

BUCÓLICA

 

A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;

De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;

De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha: Meu Pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.

 

In “Diário I” – 1941

 

Miguel Torga

1907 – 1995

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Sábado, 8 de Março de 2014

Eu li... Luís Vaz de Camões

TANTO DE MEU ESTADO ME ACHO INCERTO

 

Tanto de meu estado me acho incerto,

que em vivo ardor tremendo estou de frio;

sem causa, juntamente choro e rio,

o mundo todo abarco e nada aperto.

 

É tudo quanto sinto, um desconcerto;

da alma um fogo me sai, da vista um rio;

agora espero, agora desconfio,

agora desvario, agora acerto.

 

Estando em terra, chego ao Céu voando,

numa hora acho mil anos, e é de jeito

que em mil anos não posso achar uma hora.

 

Se me pergunta alguém porque assim ando,

respondo que não sei; porém suspeito

que só porque vos vi, minha Senhora.

 

In “SE TUDO FOSSE IGUAL A TI”

Poesia de Luís de Camões

Editora Alma Azul – Janeiro 2007

 

Luís Vaz de Camões

1524 (?) – 1580

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Domingo, 2 de Março de 2014

Eu li... Duarte de Montalegre

POEMA DO BEIJO COMPREENDIDO

 

1 – PLATONISMO

 

Aqui tens os beijos teus que noutra altura me deste.
Testemunha seja Deus de que não me compreendeste!
Para que quero os teus beijos?
— Eles não me valem de nada...
São outros os meus desejos,
são outros, são, minha Amada!
Os teus beijos? – Coisa pouca!
Os teus beijos? – Nada são!
Nada vale a tua bôca
Só vale o teu coração...

 

2 – DRAMA

 

Meu Amor! Dá-me o perfume

dos teus lábios de rubim!
Num beijo, Amor, se resume

nosso desejo sem Fim...

Meu Amor! Dá-me o veludo

dos teus afagos de seda!
Em nosso amor, tudo, tudo

se resolve em labareda...

Meu Amor! Dá-me a certeza

do teu Anseio Maior!

Tuas palavras são reza

de saudade, ó meu Amor ...

 

3 – PROJECTO

 

Amanhã, quando chegar,

meu Amor, ao pé de ti,

longamente hei-de beijar

os teus lábios de rubi...

Quando estiver, amanhã,

junto a ti, nos meus desejos,

nos teus lábios de romã

hei-de dar milhões de beijos...

Quando, amanhã, estender

minha mão no teu regaço,

o teu beijo de Mulher

acalmará meu cansaço...

 

4 – ANSEIO 

 

Um dia seremos nós,

meu Amor, numa unidade!

E ouviremos a voz

meiga e doce da saudade...

Havemos de ser um dia

um só apenas, Amor!

E nessa etéria harmonia

pode vir seja o que fôr

que não há-de, não, vencer

nossos divinos desejos...

Dá-me, teus lábios, Mulher!

Meu Amor! Dá-me mil beijos!...

 

5 – ANTES QUE, VENHA A MORTE

 

Deixa que beije os teus olhos!

Deixa que os beije, sem fim!

Mar oloroso, sem escolhos,

são teus lábios de rubim

Deixa que beije teus lábios,

os lábios do meu Desejo.

Os teus olhos meigos... abre-os,

para que os feche num beijo!

E quando teus lábios doces

colados forem aos meus,

será como se tu fôsses,

ó meu Amor, o meu Deus!

Teus olhos deixa beijar-me

e teus lábios entender-me,

– antes que clamem alarme

as minhas ânsias de verme!...

 

6 – NUDEZ

 

Deixa que te ame sem veste,

nessa nudez de ansiedade!

Meu Amor! Não me entendeste!

Meu Amor! Tenho saudade!

Dá-me os teus seios de alvura

ao afago dos meus dedos!

Será meu gesto a futura

mensagem dos teus segredos!

Abre, Amor, aos meus anseios

O teu mundo de mistério...

Não tenhas vagos receios

Beija meu corpo! – E fere-o!

 

7 – DESVAIRAMENTO

 

Abre aos meus lábios os teus

e tua bôca abre a minha!

Deixa que te ame sem véus...

Deixa que te ame, Rainha...

Deixa que o mundo eu devasse

das ancas da tua dor!

Num beijo à terra o sol dá-se...

Sejamos como eles, Amor!

Chega ao meu corpo teus seios,

meu Amor, deixa esmagá-los...

Eu bem sei que os teus anseios

querem os nossos abalos!

Meu Amor! Cinge meu peito,

de nós faz um corpo só!

– Que um dia, no mesmo leito,

lodo seremos, – e pó!...

 

8 – CULMINAÇÃO

 

Olhos fechados, sem luz;

bôca cerrada, sem fala;

-- só a vida nos conduz...

Amor! Não queiras pará-la!

Eu te comungo sem fim,

no mesmo anseio da hora!

Amor! Se existes em mim,

em ti existo, Senhora !...

E mais suave e mais lento

nosso Desejo Maior!

– Sou momento em teu momento...

És momento, meu Amor!...

 

9 – ANTES DO REGRESSO

 

Meu Amor! Chega-te a mim!

Meu Amor! Tenho. receio!

Deixa que morda o rubim

que se aninha no teu seio...

Rasga meu corpo com teus

loucos, infindos Desejos!

Cola teus lábios aos meus

na carícia de mil beijos...

Minha mão aventureira

vai desbravando segredos.

Meu Amor! És a primeira

mulher que sabem meu dedos!

Embalemo-nos em suave,

em suavíssima harmonia.

Meu Amor, és trilo de ave

e és a luz de meu dia...

E quando, enfim, teu suspiro

me disser que nos chegámos,

eu já não vivo, – deliro!

– Tens sonhos? Meu Amor: dá-mos!...

 

10 – TRANSCENDÊNCIA

 

Mas a vida não se cinge

à hora do nosso amor...

Finalidades atinge

de uma projecção maior.

Se por acaso parasse

a vida, nesse minuto,

por mais, Amor, que to amasse,

tudo seria de luto!

É maior a nossa vida,

maior que os nossos desejos...

E por mais incompreendida

que seja a hora dos beijos

ela é bela, porque é belo

da vida o doce florir...

– E a luz do Setestrêlo

Há-de brilhar, no Porvir!

 

In “Altura Cadernos de Poesia” I

Casa do Castelo, Editora, Coimbra – Fevereiro de 1945

 

Duarte de Montalegre **

1920 – 2010

 

** Pseudónimo de J. V. de Pina Martins 

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