Sexta-feira, 28 de Fevereiro de 2014

Eu li... Rui Nogar

XICUEMBO

 

Eu bebeu suruma

dos teus ólho Ana Maria

eu bebeu suruma

e ficou mesmo maluco

agora eu quero dormir quer comer

mas não pode mais dormir

não pode mais comer

suruma dos teus olhos Ana Maria

matou sossego no meu coração

oh matou sossego no meu coração

eu bebeu suruma oh suruma suruma

dos teus ólho Ana Maria

com meu todo vontade

com meu todo coração

e agora Ana Maria minha mor

eu não pode mais viver

eu não pode mais saber

que meu Ana Maria minhamor

é mulher de todo gente

é mulher de todo gente

todo gente todo gente

menos meu minhamor

 

In "Resistência africana – Antologia poética"

Organizada por Serafim Ferreira

Diabril Editora

 

Rui Nogar **

(Poeta Moçambicano)

1932 – 1993 

 

** Pseudónimo de Francisco Rui Moniz Barreto

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Domingo, 23 de Fevereiro de 2014

Eu li... José Régio

FADO PORTUGUÊS

 

O Fado nasceu um dia,
quando o vento mal bulia e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

Ai, que lindeza tamanha,
meu chão , meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.

Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada,
que beija o ar, e mais nada.

Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.

Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro veleiro
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

 

In “Poemas de Deus e do Diabo”

Quasi Edições

 

José Régio

1901 – 1969

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Terça-feira, 18 de Fevereiro de 2014

Euli... José Simões Dias

A TUA ROCA

 

 Quando te vejo à noitinha

 Nessa cadeira sentada,

 Xaile cruzado no peito,

 Na cinta a roca enfeitada.

 

 Os olhos postos na estriga,

 Volvendo o fuso nos dedos,

 Os lábios contando ao fio

 Da tua boca segredos.

 

 Eu digo, sem que tu oiças,

 Pondo os olhos na tua roca:

 Se eu um dia fosse estriga,

 Beijaria aquela boca!

 

 Que eu nunca te vi fiando

 Sem invejar os desvelos

 Com que desfias do linho

 Os brancos, finos cabelos!

 

 E aquela fita de seda

 Com que enleias o fiado,

 Irmã do lencinho verde

 Que trazes no penteado?

 

 Parece aquilo um abraço

 De um amor que é todo nosso,

 A trança do teu cabelo

 Em volta do meu pescoço!

 

 É por isso que eu murmuro

 Vendo a fita que se enreda:

 Quem me dera ser a estriga,

 E ela a fitinha de seda!

 

 Eu já sei o que sinto,

 Se tristeza, se ventura,

 Mal que suspendes a roca

 Da tua breve cintura!

 

 Penso que fias nos dedos

 Os dias da minha vida,

 Ao pé de ti sempre curta,

 Ao longe sempre comprida!

 

 Pareces-me um ramalhete

 Sentada nessa cadeira,

 E a fita da tua roca

 A silva de uma roseira.

 

 Meu amor, quando acabares

 De espiar a tua estriga

 E ouvires por alta noite

 Soluçar uma cantiga,

 

 Sou eu que estou a lembrar-me

 Da tua divina boca,

 E penso que em mim são dados

 Os beijos que dás na roca!

 

In “Peninsulares” – 1876

 

José Simões Dias

1844 – 1899

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Quinta-feira, 13 de Fevereiro de 2014

Eu li... Carlos Drummond de Andrade

A PUTA

 

Quero conhecer a puta.
A puta da cidade. A única.
A fornecedora.
Na rua de Baixo
Onde é proibido passar.
Onde o ar é vidro ardendo E labaredas torram a língua
De quem disser: Eu quero
A puta
Quero a puta, quero a puta.

Ela arreganha dentes largos
De longe. Na mata do cabelo
Se abre toda, chupante
Boca de mina amanteigada
Quente. A puta quente.

É preciso crescer esta noite inteira sem parar
De crescer e querer
A puta que não sabe
O gosto do desejo do menino
O gosto menino
Que nem o menino
Sabe, e quer saber, querendo a puta.

 

In “Boitempo I”

 

Carlos Drummond de Andrade

1902 – 1987

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Sábado, 8 de Fevereiro de 2014

Eu li... Alda Espirito Santo

EM TORNO DA MINHA BAÍA

 

Aqui, na areia,

Sentada à beira do cais da minha baía

do cais simbólico, dos fardos,

das malas e da chuva

caindo em torrentes

sobre o cais desmantelado,

caindo em ruínas

eu queria ver à volta de mim,

nesta hora morna do entardecer

no mormaço tropical

desta terra de África

à beira do cais a desfazer-se em ruínas,

abrigados por um toldo movediço

uma legião de cabecinhas pequenas,

à roda de mim,

num vôo magistral em torno do mundo

desenhando na areia

a senda de todos os destinos

pintando na grande tela da vida

uma história bela

para os homens de todas as terras

ciciando em coro, canções melodiosas

numa toada universal

num cortejo gigante de humana poesia

na mais bela de todas as lições:

HUMANIDADE

 

In “É Nosso o Solo Sagrado da Terra”

Editora Ulmeiro

 

Alda Espirito Santo

(Poetisa Santomense)

1926 – 2010

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Segunda-feira, 3 de Fevereiro de 2014

Eu li... Jorge Barbosa

POEMA DO MAR

 

O drama do Mar,

o desassossego do Mar,

sempre

sempre

dentro de nós!

 

O Mar!

cercando

prendendo as nossas Ilhas,

desgastando as rochas das nossas Ilhas!

Deixando o esmalte do seu salitre nas faces dos pescadores,

roncando nas areias das nossas praias,

batendo a sua voz de encontro aos montes,

baloiçando os barquinhos de pau que vão por estas costas...

 

O Mar!

pondo rezas nos lábios,

deixando nos olhos dos que ficaram

a nostalgia resignada de países distantes

que chegam até nós nas estampas das ilustrações

nas fitas de cinema

e nesse ar de outros climas que trazem os passageiros

quando desembarcam para ver a pobreza da terra!

 

O Mar!

a esperança na carta de longe

que talvez não chegue mais 1...

 

O Mar!

saudades dos velhos marinheiros contando histórias de tempos passados,

histórias da baleia que uma vez virou a canoa...

de bebedeiras, de rixas, de mulheres,

nos portos estrangeiros...

 

O Mar!

dentro de nós todos,

no canto da Morna,

no corpo das raparigas morenas,

nas coxas ágeis das pretas,

no desejo da viagem que fica em sonhos de muita gente !

 

Este convite de toda a hora

que o Mar nos faz para a evasão !

Este desespero de querer partir

e ter que ficar !

 

In "Antologia Temática de Poesia Africana 1”

de Mário de Andrade

Editora Livraria Sá da Costa – Lisboa

 

Jorge Barbosa

(Poeta Cabo-Verdiano)

1902 – 1971

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