Segunda-feira, 28 de Outubro de 2013

Eu li... Rosa Alice Silva Branco

ENTRE AS ROSAS

 

Desenho a minha ausência
juntamente com as rosas que murcham
mesmo em frente à janela onde escrevo.
Deixei cair umas pétalas, o ténue fio
de um caminho que se perde antes
do horizonte. Conto as letras que encontrei
nos bolsos, não chegam para nada
e não há perguntas, nada que queira saber.
Uns trocos para pão, migalhas no caminho
onde me esperas como se eu fosse um pássaro
faminto. Dou-te uma bicada de amor:
é tudo o que ficou fora do desenho.
As árvores dão estalidos
como se o vento se tivesse levantado
tão cedo. Estou aqui de véspera
e nem sequer estou cansada.
Atrás do monte há um roseiral.
Quando lá chegar direi que estive à tua espera
e será verdade como tudo o que escrevo:
amar-te-ei sempre entre as rosas
que planto ao acaso no papel
onde um rio canta
porque me esqueci de desenhar as margens.

In “Soletrar o Dia”
Edições Quasi – 2002

 

Rosa Alice Silva Branco

N. 1950

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Quarta-feira, 23 de Outubro de 2013

Eu li... Luís Amaro

TARDE

 

Vago sabor de outono

E de coisas extintas.

Nem desejos nem dor...

Meu coração esquece.

 

No ar parado voga

Talvez uma saudade

De tudo que perdi,

De tudo que  não fui.

 

Ninguém chama por mim

Nem chamo por ninguém.

Instante calmo e triste...

Como a vida está longe!

 

No dia húmido cai

Um silêncio dormente.

Uma música ausente

Meu coração embala.

 

In “As Folhas de Poesia Távola Redonda"

Fundação Calouste Gulbenkian

Boletim Cultural – Série VI – n.º 11 – Outubro de 1988

 

Luís Amaro

N. 1923

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Sexta-feira, 18 de Outubro de 2013

Eu li... Manuel Maria Barbosa du Bocage

SONETO II

 

Lá quando em mim perder a humanidade
Mais um daqueles, que não fazem falta,
Verbi-gratia – o teólogo, o peralta,
Algum duque, ou marquês, ou conde, ou frade:

Não quero funeral comunidade,
Que engrole sub-venites em voz alta;
Pingados gatarrões, gente de malta,
Eu também vos dispenso a caridade:

Mas quando ferrugenta enxada idosa
Sepulcro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epitáfio mão piedosa:

"Aqui dorme Bocage, o putanheiro;
Passou a vida folgada, e milagrosa:
Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro".

 

In “Poesias, eróticas, burlescas e satíricas”

Colecção Clássicos do Erotismo

Editora Escriba – 1969

 

Manuel Maria Barbosa du Bocage

1765 – 1805

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Domingo, 13 de Outubro de 2013

Eu li... Flora Figueiredo

VENTO NOVO

 

 Estava enrolada

 em teias e traças,

 debaixo da escada,

 lá no subsolo

 da casa fechada.

 Começava a tomar ares de desgraça.

 Manchada do tempo,

 fenescia

 a esperar que um dia

 alguma coisa acontecesse.

 Antes que se perdesse completamente,

 sentiu passar um vento cor-de-rosa.

 Toda prosa, espanou a bruma,

 pintou os lábios

 e sem vergonha nenhuma

 caprichou no recorte do decote.

 A felicidade volta à praça

 cheia de dengo e de graça,

 com perfume novo no cangote.

 

In “Amor a céu aberto”

Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro – Brasil

 

Flora Figueiredo

(Poeta Brasileira)

N. 1951

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Terça-feira, 8 de Outubro de 2013

Eu li... João de Deus

DIA DE ANOS

 

Com que então caiu na asneira
De fazer na quinta-feira
Vinte e seis anos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse...
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!
 

Não sei quem foi que me disse
Que fez a mesma tolice
Aqui o ano passado...
Agora o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo? Coitado!

Não faça tal: porque os anos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho:
Faça outra coisa: que em suma
Não fazer coisa nenhuma,
Também lhe não aconselho.

Mas anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois se se habitua,
Já não tem vontade sua,

E fá-los queira ou não queira!

 

 

In "Versos de João de Deus"

Editora Portugalmundo

 

João de Deus

1830 – 1896

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Quinta-feira, 3 de Outubro de 2013

Eu li... Florbela Espanca

REALIDADE

 

Em ti o meu olhar fez-se alvorada
E a minha voz fez-se gorjeio de ninho...
E a minha rubra boca apaixonada
Teve a frescura pálida do linho...

Embriagou-me o teu beijo como um vinho
Fulvo de Espanha, em taça cinzelada...
E a minha cabeleireira desatada
Pôs a teus pés a sombra dum caminho...

Minhas pálpebras são cor de verbena,
Eu tenho os olhos garços, sou morena,
E para te encontrar foi que eu nasci...

Tens sido vida fora o meu desejo
E agora, que te falo, que te vejo,

Não sei se te encontrei... se te perdi...

 

 

(Charneca em Flor – 1930)

 

In “Sonetos de Florbela Espanca”

Colecção Autores Portugueses de Ontem

Edição Livraria Estante – Junho.1988  

 

Florbela Espanca

1894 – 1930

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