Terça-feira, 28 de Maio de 2013

Eu li... Egito Gonçalves

OS VEGETANTES

 

Continuam aqui

roendo as unhas

Substituem as unhas por poemas

(ou cafés, futebol, anedotário)

e estilhaçam espelhos que na luz

ao seu devolvem a cruel imagem

Vidrado limo o rosto

de rugas sem memória

assistem à vida como um filme:

disparar sobre a tela é proibido

e além do mais inútil.

Curvam ao solo os ombros

escorjados; curvam-nos para

duradouras urtigas, seixos

sem horizontes, epitáfios

de lama, dezembros, poeira fria

Se chovem as esperanças não acorrem

a apanhá-las na boca ao ar aberto.

Tijolo articulado a língua balbucia

"É a vida!". Sementes violadas

não germinam

Em vão os bombardeiros os oráculos

com agulhas de sangue.

Nada tentam

para vida à fala que utilizam,

ao país do cansaço que entre dentes

ressaca.

E fazem do amor essa triste humidade,

um delíquio formal logo amortalhado

São dóceis, cibernéticos,

dia a dia premiados

de alguns gramas a mais

no chumbo do pescoço.

 

In “Os Confrades da Poesia”

Boletim Mensal Nº 43 – Dezembro.2011

 

Egito Gonçalves

1920 – 2001

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Quinta-feira, 23 de Maio de 2013

Eu li... António Feijó

MOIRO E CRISTÃ

 

O pobre moiro enamorou-se

D'Eli, moça cristã, sendo filho do Emir...

Tamanha dor sentiu, que o mísero exilou-se,

Como se alguém pudesse à propria dor fugir!

 

Longe, na terra alheia, abrasa-lhe a memória

A imagem da mulher que a vida lhe prendeu,

Vendo-a morta, a sorrir sob um nimbo de glória,

Mas no esplendor de um céu que nem mesmo era o seu...

 

Por sua vez, Eli nunca pôde esquecê-lo,

E nesse imenso amor, com presságios de agoiro,

Sentia-se morrer, como um lírio no gelo,

Sem o doce luar dos seus olhos de moiro...

 

Mas no instante supremo, ambos crentes, temendo

Que a Morte os separasse, em tão opostos céus,

Ele invocou Jesus, cheio de fé, morrendo;

E a cristã murmurou: «Alá! só tu és Deus!»

 

 

In “Sol de Inverno”

 

António Feijó

1859 – 1917

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Sábado, 18 de Maio de 2013

Eu li... Vinicius de Moraes

SONETO DO AMOR TOTAL

 

Amo-te tanto, meu amor... não cante

O humano coração com mais verdade...

Amo-te como amigo e como amante

Numa sempre diversa realidade.

 

Amo-te afim, de um calmo amor prestante

E te amo além, presente na saudade

Amo-te, enfim, com grande liberdade

Dentro da eternidade e a cada instante.

 

Amo-te como um bicho, simplesmente

De um amor sem mistério e sem virtude

Com um desejo maciço e permanente.

 

E de te amar assim, muito e amiúde

É que um dia em teu corpo, de repente

Hei-de morrer de amar mais do que pude.

 

In “Operário em Construção e Outros Poemas”

Colecção Poesia Século XX – 5ª Edição (1976)

Publicações D. Quixote

 

Vinicius de Moraes

(Poeta Brasileiro)

1913 – 1980

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Segunda-feira, 13 de Maio de 2013

Eu li... Alberto d'Oliveira

CINCO SENTIDOS

 

Cinco sentidos são os cinco dedos

Com que o homem tacteia a escuridão,

Rodeado de sombras e segredos

De que busca, e não acha, a solução.

 

Mas decerto haverá mundos mais ledos

Onde outros seres, de maior visão,

Rompendo brumas, dissipando medos,

A treva finalmente vencerão.

 

E sendo sete as cores, e outros tantos

Os sons da escala, mas com mil matizes

Que prolongam seu eco e seus encantos,

 

Talvez nos seja um dia transmitido,

Por esses mundos fortes e felizes,

Um novo sexto e sétimo sentido!

 

In "Novos Sonetos"

 

Alberto d'Oliveira

1873 – 1940

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Quarta-feira, 8 de Maio de 2013

Eu li... Firmino Mendes

UM HOMEM NO MAR

 

As notícias que chegam falam de um homem no caminho.

Pouco se pode dizer sobre um animal que ficou assim,

com os olhos voltados para as linhas verdes do pomar.

 

Dizem que um temporal lhes trespassou o coração, que

a sombra das árvores lhe tirou a luz das longas viagens.

mesmo assim, nunca se saberá por que morrem os homens.

 

Ontem, por acaso, caminhei para o mar. Toquei a concha

que, desde sempre, me esperava. Retirei-lhe o sopro das algas,

aquele engano verde que enlouquece os corpos coms sede.

 

Com os olhos para a madeira do barco que passava, parei e

vi a terra afogada. Um peixe pequeno tinha a graça da manhã.

Mais longe, no outro lado do céu, há uma bolha de poeira:

- um homem que escondeu o tempo para não ser visto.

 

In “A Terra e os Dias"

Pedra Formosa Edições

 

Firmino Mendes

N. 1949

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Sexta-feira, 3 de Maio de 2013

Eu li... Luís Veiga Leitão

A CIDADE EQUESTRE

 

A cidade equestre

No rio mergulha

Seus cascos de granito

E sobe

A galope

Encosta arriba

 

Num salto a prumo

(Lá onde o casario morre)

Upa!

É uma torre

 

Torre de pedra e nuvem

De pássaro de fogo

De corpo de mulher

Torre de tudo e de quanto

O sonho

A palavra o canto

Pode e quer.

 

(Linhas do Trópico – 1977)

 

In “Obra Completa”

Campo das Letras

 

Luís Veiga Leitão **

1912 – 1987

 

** Pseudónimo de Luís Maria Leitão

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