Segunda-feira, 28 de Janeiro de 2013

Eu li... Adélia Prado

PELICANO

 

Um dia vi um navio de perto.

Por muito tempo olhei-o

com a mesma gula sem pressa com que olho Jonathan:

primeiro as unhas, os dedos, seus nós.

Eu amava o navio.

Oh! eu dizia. Ah, que coisa é um navio!

Ele balançava de leve

como os sedutores meneiam.

À volta de mim busquei pessoas:

olha, olha o navio

e dispus-me a falar do que não sabia

para que enfim tocasse

no onde o que não tem pés

caminha sobre a massa das águas.

Uma noite dessas, antes de me deitar

vi - como vi o navio - um sentimento.

Travada de interjeições, mutismos,

vocativos supremos balbuciei:

Ó Tu! e Ó Vós!

- a garganta doendo por chorar -

Me ocorreu que na escuridão da noite

eu estava poetizada,

um desejo supremo me queria

Ó Misericórdia, eu disse

e pus minha boca no jorro daquele peito.

Ó amor, e me deixei afagar,

a visão esmaecendo-se,

lúcida, ilógica,

verdadeira como um navio.

 

In “Poesia Brasileira do Séc. XX “

(Dos Modernistas à Actualidade),

Antígona

 

Adélia Prado

(Poetisa Brasileira)

N. 1936

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Quarta-feira, 23 de Janeiro de 2013

Eu li... Maria Irene Costa

SER POETA

 

É ser alguém

Que pensa escrever bem

Sobre sonhos, fantasias,

Amor e suas magias…

 

Ser poeta é ser alguém,

Que nos fala de saudades

Desenganos e verdades;

É ser louco pensador

Que muito sofre por amor.

A beleza o encandeia

E em noite de lua cheia

– Oh, a grande maravilha!

Espalha aos quatro ventos,

Que a natureza é filha

Dos seus nobres sentimentos!

 

Ser poeta é ser alguém,

Que não tem pai nem tem mãe,

E sempre durante a vida

Almejou ter por guarida,

Um coração extremoso,

Que com amor o defendesse,

Das ondas do mar tenebroso!

 

Ser poeta é ser alguém,

Que conhece muito bem,

O mundo e seu desamor,

Do qual ri, louco de dor!

 

 

In “O Livro da Nena” – Fevereiro de 2008

Papiro Editora

 

Maria Irene Costa

N. 1951

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Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2013

Eu li... Virgínia Vendramini

AMBIÇÃO DE POETA

 

"Não quero um poema bem comportado",

Talhado num molde perfeito,

Em linguagem filigranada,

Com "chave de ouro" no fecho.

Não quero grades para o sentimento!

 

Quero, sim, meu verso nascendo livre,

Sem metro, sem rima nem cor,

Seja branco, vermelho ou amarelo...

Eu quero mesmo é que todos saibam

Porque choro, porque canto ou protesto.

 

Não quero ter meu nome consagrado,

Como poeta clássico ou moderno,

Rotulado, enquadrado num estilo...

Nem ser tema para qualquer debate.

 

Eu quero da poesia o que é mais raro:

Fazer meus versos como quem respira,

Falar das coisas que todo mundo sente,

Eu quero só ser um poeta simples.

 

 

In "Matizes",

Editora Blocos – 1999 – Rio de Janeiro

 

Virgínia Vendramini

(Professore e Poetisa Brasileira)

N. ??

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Domingo, 13 de Janeiro de 2013

Eu li... Isabel Gouveia

DIÁRIO DUMA MULHER

 

Meu rosto já tem vincos de cansaço.

Murcharam como as rosas minhas faces.

Já não posso estreitar-te num abraço,

sem temer, meu Amor, que não me abraces!

 

O luar nos meus olhos fez-se baço.

Meus lábios, se algum dia tu beijasses!...

Meu passado, porém, morreu no espaço,

qual nuvem que em chuvisco transformasses!

 

O futuro não tem de que viver.

O amor — raízes mortas que não nascem —,

os sonhos, estão como se embarcassem

 

num cruzeiro de calma, sem saber

que o é... Mas essa calma hoje é sinónimo

de um sentimento misterioso, anónimo...

 

 

In "Atrás do Tempo"

Coimbra Editora

 

Isabel Gouveia

N. 1930

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Terça-feira, 8 de Janeiro de 2013

Eu li... Gabriel Mariano

CAMINHO

 

Caminho

caminho longe

ladeira de São Tomé

Não devia ter sangue

Não devia, mas tem.

 

Parados os olhos se esfumam

no fumo da chaminé.

Devia sorrir de outro modo

o Cristo que vai de pé.

 

E as bocas reservam fechadas

a dor para mais além

Antigas vozes pressagas

no mastro que vai e vem.

 

Caminho

caminho longe

ladeira de São Tomé

Devia ser de regresso

devia ser e não é.

 

 

In “Doze Poemas de Circunstância”

 

Gabriel Mariano **

(Poeta Cabo-Verdianos)

1928 – 2002

 

** Pseudónimo de José Gabriel Lopes da Silva

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Quinta-feira, 3 de Janeiro de 2013

Eu li... Cruz e Sousa

OLHOS DO SONHO

 

Certa noite soturna, solitária,

Vi uns olhos estranhos que surgiam

Do fundo horror da terra funerária

Onde as visões sonâmbulas dormiam...

 

Nunca da terra neste leito raso

Com meus olhos mortais, alucinados...

Nunca tais olhos divisei acaso

Outros olhos eu vi transfigurados.

 

A luz que os revestia e alimentava

Tinha o fulgor das ardentias vagas,

Um demónio noctâmbulo espiava

De dentro deles como de ígneas plagas.

 

E os olhos caminhavam pela treva

Maravilhosos e fosforescentes...

Enquanto eu ia como um ser que leva

Pesadelos fantásticos, trementes.

 

Na treva só os olhos, muito abertos,

Seguiam para mim com majestade,

Um sentimento de cruéis desertos

Me apunhalava com atrocidade.

 

Só os olhos eu via, só os olhos

Nas cavernas da treva destacando:

Faróis de augúrio nos ferais escolhos,

Sempre, tenazes, para mim olhando...

 

Sempre tenazes para mim, tenazes,

Sem pavor e sem medo, resolutos,

Olhos de tigres e chacais vorazes

No instante dos assaltos mais astutos.

 

Só os olhos eu via! -- o corpo todo

Se confundia com o negror em volta...

Ó alucinações fundas do lodo

Carnal, surgindo em tenebrosa escolta!

 

E os olhos me seguiam sem descanso,

Suma perseguição de atras voragens,

Nos narcotismos dos venenos mansos,

Como dois mudos e sinistros pajens.

 

E nessa noite, em todo meu percurso,

Nas voltas vagas, vãs e vacilantes

Do meu caminho, esses dois olhos de urso

Lá estavam tenazes e constantes.

 

Lá estavam eles, fixamente eles,

Quietos, tranquilos, calmos e medonhos...

Ah! Quem jamais penetrará naqueles

Olhos estranhos dos eternos sonhos!

 

 

Janeiro de 1897

 

In “Faróis”

 

Cruz e Sousa

(Poeta Brasileiro)

1861 – 1898

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