Domingo, 28 de Outubro de 2012

Eu li... João Coelho dos Santos

COISAS DO AMOR

 

Se sentes o rosto corar

E o coração louco bater,

Se tens ânsia de estar

E imperativo de viver

- Isso, são coisas do amor.

 

Se na escuridão vês beleza

E captas o encanto

Do trinar do rouxinol,

Se te apaixonas tanto

No ocaso, como no nascer do sol

- Isso, são coisas do amor.

 

Se gostas de ver o regato

A deslizar em cascata

E branco cisne no lago

Por sob o luar de prata,

Se captas raios de luz

Na ramagem colorida,

Se a mensagem de Jesus

É fonte viva de vida

- Isso, são coisas do amor.

 

Se escutas a melodia

Que te rodeia, na natureza,

Se crês na profecia

De horóscopo ou da sina,

Se gostas de vela acesa

- Isso, são coisas do amor.

 

Amigo,

Escuta o que te digo:

Se não tiveres o que amas,

Ama, ao menos, o que tens.

Estoico, suporta a dor  

De certas coisas do amor.

 

 

In “Coisas do Amor”

 

João Coelho dos Santos

N. 1939

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Terça-feira, 23 de Outubro de 2012

Eu li... Fátima Irene Pinto

SINO

Quisera Meu Senhor, que eu fosse aquela,
De quem tristeza e dor passassem longe.
Quisera assim tanger tal como tange,
Alegre, o sino daquela Capela.

Quisera Meu Senhor, que meus clamores,
Que as lágrimas que choro em desatino,
Pudessem transmutar o meu destino,
Em bênçãos, risos, preces e louvores.

Mas choro... e é tão sentido este meu pranto,
Que verto fartamente às escondidas,
Com o peito afundado em desencanto.

Ao longe escuto o sino da Capela.
Tangendo ele me diz que sou aquela,
Que chora no compasso do seu canto.

 

 

In “Palavras para Entorpecer o Coração”

Soler Editora

 

Fátima Irene Pinto

(Poetisa Brasileira)

N. 1953

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Quinta-feira, 18 de Outubro de 2012

Eu li... Manuel Alegre

CARTA DO MANUELINHO DE ÉVORA A

MIGUEL DE VASCONCELOS,

MINISTRO DO REINO POR VONTADE ESTRANHA

 

Tiraste-me o direito à vida mas eu vivo

mandaste-me prender mas eu sou livre

que não pode morrer não pode ser cativo

quem pela Pátria morre e só por ela vive.

 

Mandaste-me prender e preso não me prendes

tu ministro do reino por vontade estranha

tu que tudo vendeste e só não vendes

quem luta por seu povo e não por Espanha.

 

Vi os campos florir mas não ouvi

raparigas cantando em nossas eiras

nossos frutos eu vi levar e vi

na minha Pátria as garras estrangeiras.

 

Quem pode retê-lo?

Quem sabe a causa que sem cessar peleja?

E cavalga, cavalga.

 

Sei apenas que às vezes estremecemos:

é quando irrompe de repente à flor do ser

e nos deixa nas mãos

uma espada e uma rosa.

 

 

In “30 Anos de Poesia”
Publicações Dom Quixote

Manuel Alegre
N. 1936

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Sábado, 13 de Outubro de 2012

Eu li... Glória Marreiros

DANÇA DAS PALAVRAS

 

Foste o mel que adoçou a vida amarga,

que a lua, tristemente, me trazia.

Foste uma taça erguida à alegria,

com o sabor secreto duma sarga.

 

Libertaste minha alma, duma carga

submersa de doutrina que atrofia.

Agora a noite é escassa e fugidia

e a madrugada é luz que não me larga.

 

Deste asas aos prazeres do desejo,

trouxeste brisas leves, onde vejo

a ilusão formar um novo abrigo.

 

Foste o pão e o vinho, que não tive,

e a valsa dos meus beijos, em declive,

na dança das palavras que não digo!

 

 

In “Emoções em Terra Doce”

 

Glória Marreiros

N. ?

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Segunda-feira, 8 de Outubro de 2012

Euli... Conceição Lima

ANTES DO POEMA

 

I

Quando o luar caiu

e tingiu de magia os verdes da ilha

cheguei, mas tu já não eras.

Cheguei quando as sombras revelavam

os murmúrios do teu corpo

e não eras.

Cheguei para despojar de limites

o teu nome.

Não eras.

As nuvens estão densas de ti

sustentam a tua ausência

recusam o ocaso do teu corpo

mas não és.

Pedra a pedra encho a noite

do teu rosto sem medida

para te construir convoco os dias

pedra a pedra

no tempo que te consome.

As pedras crescem como vagas

no silêncio do teu corpo

Jorram e rolam

como flores violentas

no silêncio do teu corpo

E sangram. Como pássaros exaustos.

A noite e o vento se entrelaçam

no vazio que te espera.

 

II

Súbito chegaste

quando falsos deuses subornavam

o tempo.

Chegaste para despedir

a insónia e o frio

Chegaste sem aviso

quando a estrada se abria

como um rio

chegaste para resgatar

sem demora o principio.

 

Grave o silêncio rodeia o teu corpo

hostil o silêncio agarra o teu corpo.

Mas já tomaste horas e caminhos

já venceste matos e abismos

já a espessura do obô

resplandece em tua testa.

E não bastam pombas em demência

no teu rosto

não bastam consciências soluçantes

em teu rasto

não basta o delírio das lágrimas libertas.

 

Eu cantarei em pranto

teu regresso sem idade

teu retorno do exílio na saudade

cantarei sobre a terra

teu destino de rebelde.

 

Para te saudar no mar e no palmar

na manhã do canto sem represas

cantarei a praia lisa e o pomar.

 

Direi teu nome e tu serás.

 

 

In "O Útero da Casa"

Editorial Caminho – 2004 – Lisboa

 

Conceição Lima

(Poetisa de S. Tomé e Príncipe)

N. 1961

 

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Quarta-feira, 3 de Outubro de 2012

Euli... Manuel Bandeira

NOCTURNO DO MORRO DO ENCANTO

 

Este fundo de hotel é um fim de mundo!

Aqui é o silêncio que tem voz. O encanto

Que deu nome a este morro põe no fundo

De cada coisa o seu cativo canto.

 

Ouço o tempo, segundo por segundo,

Urdir a lenta eternidade. Enquanto

Fátima ao pó de estrelas sitibundo

Lança a misericórdia do seu manto.

 

Teu nome é uma lembrança tão antiga,

Que não tem som nem cor, e eu, miserando,

Não sei mais como o ouvir, nem como o diga.

 

Falta a morte chegar... Ela me espia

Neste instante talvez, mal suspeitando

Que já morri quando o que eu fui morria.

 

 

Petrópolis, 21-3-1953

 

In “As Folhas de Poesia Távola Redonda"

Fundação Calouste Gulbenkian

Boletim Cultural – Série VI – n.º 11 – Outubro de 1988

 

Manuel Bandeira

(Poeta Brasileiro)

1886 – 1968

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