Sábado, 28 de Julho de 2012

Eu li... Carlos Lemonde de Macedo

CANÇÃO DA ÚLTIMA ESPERANÇA

 

Rompa-se o corpo e fique

O centro de seu centro.

Que então se verifique

Nua a alma lá dentro.

 

Mas nua nem que seja

No rictus de ironia

De uma boca que  beija

Como quem se desvia.

 

Que só se verifique

O centro do seu centro

Se, morto o corpo, fique

Nua a alma lá dentro.

 

 

In “As Folhas de Poesia Távola Redonda"

Fundação Calouste Gulbenkian

Boletim Cultural – Série VI – n.º 11 – Outubro de 1988

 

Carlos Lemonde de Macedo

N. 1921

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Segunda-feira, 23 de Julho de 2012

Eu li... Irene Lisboa

ESCREVER

 

Se eu pudesse havia de... de...

transformar as palavras em clava!

havia de escrever rijamente.

Cada palavra seca, irressonante!

Sem música, como um gesto,

uma pancada brusca e sóbria.

Para quê,

mas para quê todo o artifício

da composição sintáctica e métrica,

este arredondado linguístico?

Gostava de atirar palavras.

Rápidas, secas e bárbaras: pedradas!

Sentidos próprios em tudo.

Amo? Amo ou não amo!

Vejo, admiro, desejo?

Ou não... ou sim.

E, como isto, continuando...

 

E gostava,

para as infinitamente delicadas coisas do espírito

(quais? mas quais?)

em oposição com a braveza

do jogo da pedrada,

da pontaria às coisas certas e negadas,

gostava...

de escrever com um fio de água!

um fio que nada traçasse...

fino e sem cor... medroso...

Ó infinitamente delicadas coisas do espírito...

Amor que se não tem,

desejo dispersivo,

sofrimento indefinido,

ideia incontornada,

apreços, gostos fugitivos...

Ai, o fio da água,

o próprio fio da água poderia

sobre vós passar, transparentemente...

ou seguir-vos, humilde e tranquilo?

 

 

 

Irene Lisboa

1892 – 1958

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Quarta-feira, 18 de Julho de 2012

Eu li... António Maria Lisboa

VÍRGULA

 

Eu menino às onze horas e trinta minutos

a procurar o dia em que não te fale

feito de resistências e ameaças — Este mundo

compreende tanto no meio em que vive

tanto no que devemos pensar.

 

A experiência o contrário da raiz originária aliás

demasiado formal para que se possa acreditar

no mais rigoroso sentido da palavra.

 

Tanta metafísica eu e tu

que já não acreditamos como antes

diferentes daquilo que entendem os filósofos

— constitui uma realidade

que não consegue dominar (nem ele próprio)

as forças primitivas

quando já se tem pretendido ordens à vida humana

em conflito com outras surge agora

a necessidade dos Oásis Perdidos.

 

E vistas assim as coisas fragmentariamente é certo

e a custo na imensidão da desordem

a que terão de ser constantemente arrancadas

— são da máxima importância as Velhas Concepções pois

a cada momento corremos grandes riscos

desconcertantes e de sinistra estranheza.

 

Resulta isto dum olhar rápido sobre a cidade desconhecida.

E abstraindo dos versos que neste poema se referem ao mundo humano

vemos que ninguém até hoje se apossou do homem

como o frágil véu que nos separa vedados e proibidos.

 

 

In "Ossóptico e Outros Poemas"

 

António Maria Lisboa

1928 – 1953 

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Sexta-feira, 13 de Julho de 2012

Eu li... Fernando Esteves Pinto

APODERAVA-SE DAS MINHAS PALAVRAS

 

Apoderava-se das minhas palavras

como se fossem uma toalha do seu rosto

alguns utensílios reservados para a sua vida.

Eu escrevia casa e a casa teria de ser a defesa do nosso amor.

Eu escrevia cama e a cama transformava-se num jogo de silêncio.

Vivia por trás da minha escrita

como se preenchesse a alma de tudo o que não entendia.

Queria que eu mobilasse a vida só com palavras

breves imagens que fossem o retrato do meu pensamento.

Eu proporcionava-lhe a felicidade como um enigma

em cada palavra um sentimento formalmente virtual

depois abandonava-a com a ilusão do espaço decorativo.

 

 

In “Área Afectada”

Editora Temas Originais – 2010

 

Fernando Esteves Pinto

N. 1961

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Domingo, 8 de Julho de 2012

Eu li... Adelino Moreira

A VOLTA DO BOÉMIO

Boémia
Aqui me tens de regresso
E suplicante te peço
A minha nova inscrição
Voltei
Para rever os amigos que um dia
Deixei a chorar de alegria
Me acompanha o meu violão

Boémia
Sabendo que andei distante
Sei que essa gente falante
Vai agora ironizar
Ele voltou
O boémio voltou novamente
Partiu daqui tão contente
Por que razão quer voltar ?

Acontece que a mulher que floriu o meu caminho
De ternura meiguice e carinho
Sendo a vida do meu coração
Compreendeu e abraçou-me a sorrir
Meu amor, você pode partir
Não esqueça o seu violão
Va rever os teus rios
Teus montes, cascatas
Va sonhar com nova serenata
E abraçar seus amigos leais
Va embora
Pois me resta o consolo e a alegria
De saber que depois da boémia
E de mim
Que você gosta mais…


 

Adelino Moreira

1918 – 2002

(Compositor luso-brasileiro)

 

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Terça-feira, 3 de Julho de 2012

Eu li... Herberto Hélder

BICICLETA

 

Lá vai a bicicleta do poeta em direcção

ao símbolo, por um dia de verão

exemplar. De pulmões às costas e bico

no ar, o poeta pernalta dá à pata

nos pedais. Uma grande memória, os sinais

dos dias sobrenaturais e a história

secreta da bicicleta. O símbolo é simples.

Os êmbolos do coração ao ritmo dos pedais –

lá vai o poeta em direcção aos seus

sinais. Dá á pata

como os outros animais.

.

O sol é branco, as flores legítimas, o amor

confuso. A vida é para sempre tenebrosa.

entre as rimas e o suor, aparece e

desaparece uma rosa. No dia de verão,

violenta, a fantasia esquece. Entre

o nascimento e a morte, o movimento da rosa

floresce sabiamente. E a bicicleta ultrapassa

o milagre. O poeta aperta o volante e derrapa

no instante da graça.

.

De pulmões às costas, a vida é para sempre

tenebrosa. A pata do poeta

mal ousa agora pedalar. No meio do ar

distrai-se a flor perdida. A vida é curta.

Puta de vida subdesenvolvida.

O bico do poeta corre os pontos cardeais.

O sol é branco, o campo plano, a morte

certa. Não há sombra de sinais.

E o poeta dá à pata como os outros animais.

.

Se a noite cai agora sobre a rosa passada,

e o dia de verão se recolhe

ao seu nada, e a única direcção é a própria noite

achada? De pulmões às costas, a vida

é tenebrosa. Morte é transfiguração,

pela imagem de uma rosa. E o poeta pernalta

de rosa interior dá à pata nos pedais

da confusão do amor.

Pela noite secreta dos caminhos iguais,

o poeta dá à pata como os outros animais.

.

“Se o sul é para trás e o norte é para o lado,

é para sempre a morte.

Agarrado ao volante e pulmões às costas

como um pneu furado,

o poeta pedala o coração transfigurado.

Na memória mais antiga a direcção da morte

é a mesma do amor. E o poeta,

afinal mais mortal do que os outros animais,

dá à pata nos pedais para um verão interior.

 

 

In “Ler Por Gosto”

Areal Editores

 

Herberto Hélder

N. 1930

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