Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2012

Eu li... Carlos Drummond de Andrade

A CASTIDADE COM QUE ABRIA AS COXAS

 

A castidade com que abria as coxas

e reluzia a sua flora brava.

Na mansuetude das ovelhas mochas,

e tão estrita, como se alargava.

 

Ah, coito, coito, morte de tão vida,

sepultura na grama, sem dizeres.

Em minha ardente substância esvaída,

eu não era ninguém e era mil seres

 

em mim ressuscitados. Era Adão,

primeiro gesto nu ante a primeira

negritude de corpo feminino.

 

Roupa e tempo jaziam pelo chão.

E nem restava mais o mundo, à beira

dessa moita orvalhada, nem destino.

 

 

In 'O Amor Natural'

 

Carlos Drummond de Andrade

(Poeta Brasileiro)

1902 – 1987

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Sábado, 21 de Janeiro de 2012

Eu li... Florbela Espanca

A TUA VOZ NA PRIMAVERA

 

Manto de seda azul, o céu reflecte
Quanta alegria na minha alma vai!
Tenho os meus lábios húmidos: tomai
A flor e o mel que a vida nos promete!

Sinfonia de luz meu corpo não repete
O ritmo e a cor dum mesmo beijo... olhai!
Iguala o sol que sempre às ondas cai,
Sem que a visão dos poentes se complete!

Meus pequeninos seios cor-de-rosa,
Se os roça ou prende a tua mão nervosa,
Têm a firmeza elástica dos gamos...

Para os teus beijos, sensual, flori!
E amendoeira em flor, só ofereço os ramos,
Só me exalto e sou linda para ti!

 

 

In “A Mensageira das Violetas”

Editora L&PM

 

Florbela Espanca
1894 – 1930                                 

 

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Domingo, 15 de Janeiro de 2012

Eu li... Bernardino Lopes

VELHO MURO

 

Velho muro da chácara! Parcela

Do que já foste: resto do passado,

Bolorento, musgoso, úmido, orlado

De uma coroa víride e singela.

 

Forte e novo eu te vi, na idade bela

Em que, falando para o namorado,

Tinhas no ombro de pedra debruçado

O corpo senhoril de uma donzela…

 

Linda epoméia te bordava a crista;

Eras, ao luar de leite, um linho albente,

Folha de prata, ao sol, ferindo a vista.

 

Em ti pousava a doce borboleta…

E quantas noites viste, ermo e silente,

Romeu beijando as mãos de Julieta!

 

 

In “Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Parnasiana”

Ed. Manuel Bandeira – Instituto Nacional do Livro

Rio de Janeiro – 1951

 

Bernardino Lopes

(Poeta Brasileiro)

1859 – 1916

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Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2012

Eu li... Gomes Leal

AS MÃES

Ó suaves mulheres, que ides cantando
através das searas e das vinhas,
vinde ouvir uma história, em verso brando,
que hei-de ensinar a ler às andorinhas.

É uma história florida como as rosas!
Quero contá-la aos vossos querubins,
pelo luar, às horas religiosas,
quando os cravos concebem e os jasmins.

Quero falar dum ente extraordinário.
trágico. meigo, místico, suave;
dum leão que morreu sobre um Calvário
e que deixou um testamento de ave.

Vinde escutar-lhe a história em Galileia.
seu suor, sua morte e seu lençol,
e quando electrizava a vil Judeia
com seus olhos brilhantes como o Sol.

Desoladas mulheres, que ides chorando
os maridos que vão para os degredos,
por alta lua, os filhos embalando
com seus olhos brilhantes como o Sol.

vinde buscar a cura a vossos males,
na narração das lágrimas, das dores
do que andava nos rios e nos vales
com os simples, os chãos, os pescadores!

Vinde ouvir como andava largos dias
nos lagos e baías prazenteiras
e electrizava as almas das judias
sob os seus véus, debaixo das palmeiras.

Vinde escutar as lástimas estranhas
das filhas de Sião de longas tranças;
como ele amava os lagos, as montanhas,
as pombas, os doentes, as crianças!

Vinde escutar seus prantos nos abrolhos,
nas montanhas seu verbo às multidões.
e, a expulsar dos demónios as legiões,
a forte luz terrível de seus olhos.

Ó suaves mulheres, que estais cantando
ao pôr do Sol, à porta, às criancinhas,
vinde ouvir uma história, em verso brando.
que hei-de ensinar a ler às andorinhas.


In “História de Jesus”

(Para as Criancinhas Lerem)
Edição: José Carlos Seabra Pereira

Assírio & Alvim

 

Gomes Leal

1848 – 1921

 

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Terça-feira, 3 de Janeiro de 2012

Eu li... Affonso Romano de Sant'Anna

ASSOMBROS

 

Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.

Fora, não se dão conta os desatentos.

 

Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.

 

Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.

 

Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.

 

 

In “Lado Esquerdo do Meu Peito”

Editora Rocco  

 

Affonso Romano de Sant'Anna

(Escritor e Poeta Brasileiro)

N.1937

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