Segunda-feira, 31 de Janeiro de 2011

Eu li... Afonso Duarte

GRITO

 

Não posso já com ervas nem com árvores;

Prefiro os lisos, frios mármores

     Onde nada está escrito.

 

Meu gosto da paisagem fez-se escuro;

Nenhures é o lugar que mais procuro

     Como homem proscrito.

 

Eu bem sei: A verdura! A flor! Os frutos!

Mas não posso passar de olhos enxutos,

     Meu campo verde aflito.

 

Porventura cegaram os meus olhos

Porque há nos silveirais flores aos molhos

     - Tanta flor me tem dito.

 

Mas eu bem sei que movediços lodos

Que são o chão, as lágrimas de todos,

     Meu coração contrito.

 

Eu não sei se amanhã será meu dia;

Recolho-me furtivo na poesia,

     Incerto o chão que habito.

 

Ai de mim! Ai de mim, nuvem medonha!

Os homens conheci, bebi peçonha,

     E é por isso que grito.

 

 

(Ossadas)


In “Obra Poética”

Afonso Duarte

1884 – 1958  

 

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Quinta-feira, 27 de Janeiro de 2011

Eu li... António Feliciano de Castilho

CONVITE À FELICIDADE

 

Ditoso, Júlia, ditoso,
quem livre de inquietação
come os frutos que semeia,
e dorme no seu torrão;

 

que desconhece das cortes
intriga, esperança e receios,
que julga acabar-se o mundo,
onde acabam seus passeios.

 

Penúria e riqueza ignora,
dois escolhos da virtude,
e tira do seu trabalho
bens, prazer, vigor, saúde.

 

De iguais rodeado vive,
e só tem por superior
seu Criador no outro mundo,
na paróquia o seu pastor.

 

As aras jamais incensa
de Astreia, Minerva ou Marte,
mas Baco e Pomona e Ceres
lhe riem de toda a parte.

 

Mais apertado não vive
na avita cabana herdada,
que o rico em salões de estuque,
de alta, soberba fachada.

 

Em vez de jardins estéreis,
faz consistir seu prazer
em lhe à porta verdejarem
as couves que fez nascer.

 

Dorme em colmo um sono inteiro,
enquanto, em doirado leito,
o nobre se volve, e geme,
de aflição ralado o peito.

 

Ao lado lhe dorme a esposa,
fiel, inocente e bela;
o filhinho, imagem sua,
dorme em paz ao seio dela.

 

Se ela lhe diz: – eu te adoro,
eu te amarei toda a vida! -
de ser verdade o que escuta
nem um momento duvida.

 

Sabe que a fé, que a virtude,
virtude pura, ilibada,
dons mais belos que a beleza,
são numes da sua amada.

 

Ela não vive no meio
da corrupta mocidade,
que adorna, envenena, empesta,
das cortes a sociedade.

 

Não quer brilhar nos passeios,
nem de mil adoradores
vai disputar nos teatros
os suspiros e os louvores.

 

Passa a noite ao pé do esposo,
entre os filhos passa o dia,
o trabalho a ocupa sempre:
ser infiel poderia?

 

Da sua família é toda,
nela concentra a afeição,
que as damas à intriga, às festas,
ao jogo, aos enfeites dão.

 

Quer-se ornar nos santos dias?
Não se assenta ao toucador
em vez de jóias brilhantes
procura singela flor.

 

Para arranjar seus cabelos,
nem corre ao cristal da fonte;
não carece de outro espelho,
tem seu consorte defronte.

 

Ele lhe ensina a maneira
por que lhe ficam melhor;
ele lhe diz em que sítio,
e como lhe ajusta a flor.

 

Se lhe agrada, está contente;
e vai de inocência cheia
entrar com ele nas festas,
nas festas simples da aldeia.

 

Ah, Júlia! Que sorte a de ambos!
Sem longas filosofias,
sabem melhor do que os sábios
desfrutar serenos dias.

 

Os princípios, os sistemas,
sonhos de estéril vaidade,
jamais tornaram ditosa
a mesquinha humanidade..

 

Se existe o bem sobre a terra,
se queres, Júlia, este bem,
uma aldeia… uma cabana…
ternura… inocência… Ah, vem!

 

 

In “Biblioteca Digital”

Porto Editora

 

António Feliciano de Castilho

1800 – 1875

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Domingo, 23 de Janeiro de 2011

Eu li... Eugénio de Andrade

GREEN GOD

 

Trazia consigo a graça

das fontes quando anoitece.

Era um corpo como um rio

em sereno desafio

com as margem quando desce.

 

Andava como quem passa

sem ter tempo de parar.

Ervas nasciam dos passos,

cresciam troncos dos braços

quando os erguia no ar.

 

Sorria como quem dança.

E desfolhava ao dançar

o corpo, que lhe tremia

num ritmo que ele sabia

que os deuses devem usar.

 

E seguia o seu caminho,

porque era um deus que passava.

Alheio a tudo o que via,

enleado na melodia

de uma flauta que tocava.

 

 

(As Mãos e os Frutos)

 

 

In “Antologia Breve”

5ª ed. – Outubro.1985

Editora Limiar

 

Eugénio de Andrade

1923 – 2005  

 

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Quarta-feira, 19 de Janeiro de 2011

Eu li... Campos Teixeira

OLHAR

 

No caminho desta vida

sempre nos guia um olhar…

assim nas águas do mar

a luz dum astro caída.

 

Olhar é luz d’alvorada,

na qual desponta um desejo,

carícia meiga, velada

promessa casta dum beijo.

 

Olhar é sol em que passa

uma nuvem fugitiva;

a luz dum olhar aviva

dum rosto a divina graça.

 

Olhar é que esmorece,

num desengano perdida;

olhar é luz duma prece,

singela, pura, sentida.

 

Olhar é céu azulino

numa noite d’amargura

leva consigo o destino,

também nos traz a ventura.

 

 

In "Trovas Portuguesas" – 1924   

Casa Editora de A. Figueirinhas – Porto 

 

Campos Teixeira

 

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Sábado, 15 de Janeiro de 2011

Eu li... Ofélia Bomba

QUANDO

 

Quando o silêncio invadir os meus dias

Na sequência de perdas importantes,

Quando a saudade destronar alegrias

E a hora for mais breve que os instantes

 

Quando a tua imagem for só esboço

E a tua voz uma alucinação

Quando não fizer sentido já o esforço

E a vida for, apenas, ilusão

 

Quando o Sol se escoar pelos meus dedos

Numa espera solene do infinito

E der a vez à lua, mais serena,

 

E ao desfilar de sonhos e segredos...

Direi, então, num final tão bonito,

Que tudo, bom ou mau, valeu a pena!

 

 

Fevereiro 1993

(Poemas do Rato Morto)

 

In “Jornal Poetas & Trovadores”

Nº 23 Ano XXIII 3ª Série

Julho/Setembro 2002

 

Ofélia Bomba

N. 1945

(Médica Psiquiatra e Poetisa)

 

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Terça-feira, 11 de Janeiro de 2011

Eu li... Al Berto

PENSO NA MORTE

 

penso na morte

mas sei que continuarei vivo no epicentro das flores

no abdómen ensanguentado doutros-corpos-meus

na concha húmida de tua boca em cima dos números mágicos 

anunciando o ciclo das águas e o estado do tempo

 

a memória dos dias resiste no olhar dum retrato

continuo só

e sinto o peso do sorriso que não me cabe no rosto 

improviso um voo de alma sem rumo mas nada me consola 

 

é imprevista a meteorologia das paixões

pássaros minerais afastam-se suspensos 

vislumbro um corpo de chuva cintilando na areia

 

até que tudo se perde na sombra da noite... além 

junto à salgada pele de longínquos ventos.

 

 

 

In “O Medo”

Contexto Editora – Lisboa

 

Al Berto

(pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares)

1948 – 1997   

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Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011

Eu li... António Lopes Ribeiro

PROCISSÃO

Tocam os sinos da torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

 

Mesmo na frente, marchando a compasso,
De fardas novas, vem o solidó.
Quando o regente lhe acena com o braço,
Logo o trombone faz popó, popó.

 

Olha os bombeiros, tão bem alinhados!
Que se houver fogo vai tudo num fole.
Trazem ao ombro brilhantes machados,
E os capacetes rebrilham ao sol.

 

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

 

Olha os irmãos da nossa confraria!
Muito solenes nas opas vermelhas!
Ninguém supôs que nesta aldeia havia
Tantos bigodes e tais sobrancelhas!

 

Ai, que bonitos que vão os anjinhos!
Com que cuidado os vestiram em casa!
Um deles leva a coroa de espinhos.
E o mais pequeno perdeu uma asa!

 

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

 

Pelas janelas, as mães e as filhas,
As colchas ricas, formando troféu.
E os lindos rostos, por trás das mantilhas,
Parecem anjos que vieram do Céu!

 

Com o calor, o Prior aflito.
E o povo ajoelha ao passar o andor.
Não há na aldeia nada mais bonito
Que estes passeios de Nosso Senhor!

 

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Já passou a procissão.

 

 

Declamado por João Villaret

 

António Lopes Ribeiro

1908 – 1995

(Cineasta e jornalista)

 

 

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