Domingo, 30 de Maio de 2010

Eu li... Manuel Rito Dias

HOJE MESMO

 

Hoje deves cantar

Talvez a alegria te encurte o caminho.

 

Hoje deves comungar

Talvez tenhas um sonho a partilhar.

 

Hoje deves receber

Talvez o outro precise de amar.

 

Hoje deves caminhar

Talvez te encontres com alguém na vida.

 

Hoje deves sorrir

Talvez alguma flor esteja a precisar de sol.

 

Hoje deves começar

Talvez amanhã já seja tarde.

 

Hoje deves renascer

Talvez tenhas apenas nascido.

 

In “Deserto Sul”

 

Manuel Rito Dias

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Quarta-feira, 26 de Maio de 2010

Eu li... Raul Machado

POEMA DA ÁGUA

 

A água também nasce pequenina

- nasce gota de orvalho ou de neblina...

 

A água também tem a sua infância

- quando apenas riacho cantarola

brinca de roda nos redemoinhos

salta os seixos que encontra

e faz apostas de corrida - travessa -

por entre as grotas e peraus

e arranca as flores que a marginam

para engrinaldar a cabeleira solta

sobre o leito revolto das areias...

 

A água também tem adolescência

- sonha lagos românticos à lua

fitando os astros namorados dela

embevecida em seus olhos de ouro...

e assim sempre amorosa e sonhadora

vai tecendo e bordando - dia e noite

o seu vestido de noiva nas montanhas

e o seu véu de noivado nas cascatas...

 

A água também tem maturidade

- fica serena e grave em rios fundos

e num destino generoso e amigo

espalha a vida que em si mesma encerra

semeia bênçãos para o grão de trigo

abre caminhos líquidos da terra

e enlaça os povos através dos mares...

 

A água também tem sua velhice

- e de ver-lhe os cabelos muitos brancos

onda lenta de espuma  destrinçada em neve, nos ares flutuando...

 

A água também sofre...e quando sofre

se faz divina e vem brilhar em lágrimas

ou se reflecte a dor  da  natureza

geme no vento transformada em chuva.

 

A água também morre... e quando seca

- e a sua morte entristece  tudo :

choram-lhe, enfim na desolação,

todos os seres vivos que a rodeiam

porque ela é o seio maternal da vida

e de tal maneira ama seus filhos rudes

que muitas vezes para os salvar se deixa

ficar sem o murmúrio de uma queixa

prisioneira de poços e açudes...

 

Bendita seja, pois, água divina

que fecunda, consola, dessedenta, purifica,

e que, desde pequenina,

feita gota de orvalho,

mata a sede das plantas entreabertas

e prepara o festivo esplendor da primavera...

e que, nascida em píncaros da serra

vem de tão alto, procurando sempre ter

um fim de planície e de humildade

até perder, na última renúncia,

o nome de baptismo de seus rios

para ficar anónima nos mares.

 

 

Raul Machado

1891 – 1954

(Jurista, ensaísta, escritor e poeta brasileiro)

 

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Sábado, 22 de Maio de 2010

Eu li... António Leitão

NÉVOA

 

A montanha respira no silêncio;

beija o sol e amornece as rudes fragas;

manso, um véu de neblina está suspenso

sobre o vale e a azáfama das casas.

 

A minha alma chora na tristeza

dos pinhos quando a névoa molha a rama

e cai sobre a caruma que se acama

nos silêncios da Serra em macieza.

 

A luz do tempo, urdindo sua manta

de sombras, nos embala em fantasia

de ecos - tudo é memória de outra vida

em transparência pura que sonhamos.

 

Dói-me o que penso e o que penso é breve

e a dor prolonga a sua brevidade

é como haver a luz que não se teve

é como não ter tempo e ter idade.

 

 

(A LUZ E O BERÇO”, poemas de Natal e Serra)

1999

 

 

In Jornal “Poetas & Trovadores”

Ano XIX 3ª Série n.º 10

Maio/Junho de 1999

 

António Leitão

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Terça-feira, 18 de Maio de 2010

Eu li... William Shakespeare

SONETO 92

 

Faz teu pior pra mim te afastares,
Enquanto eu viva tu és sempre meu,
Não há mais vida se tu não ficares,
Pois ela vive desse amor que é teu.

 

Por que hei de temer grande traição
Se tem fim minha vida com a menor;
De vida abençoada eu sou, então,
Por não estar preso ao teu cruel humor.

 

Tua mente inconstante não me afecta,
Minha vida é ligada à tua sorte;
Como é feliz o fato que decreta

 

Que sou feliz no amor, feliz na morte!
Porém que graça escapa de temer?
Podes ser falso e eu sequer saber.

 

 

In “Sonetos de William Shakespeare”

 

William Shakespeare

(Poeta Inglês)

 

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Sexta-feira, 14 de Maio de 2010

Eu li... Guilherme de Azevedo

BOAS NOITES COVEIRO

 

Boas noites coveiro: a tua enxada
Não cessa há tanto tempo de cavar?!
Cavaleiro da morte, ó fronte desolada
Não sentes a mão trémula e cansada
De tanto trabalhar!

Tu esperas hoje as legiões sombrias
De mortos, que eu suponho ao longe ver?
Os felizes caídos nas orgias
E os tristes que além todos os dias
O gelo vem colher?!

Que imensa vala aberta! são medonhos
Os risos d'essa boca infame, alvar!...
Descansa dos teus dias enfadonhos!
– Eu  cavo a sepultura dos teus sonhos
Não posso descansar!

 

 

In “A Alma Nova”

I. N. – Casa da Moeda

 

Guilherme de Azevedo

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Segunda-feira, 10 de Maio de 2010

Eu li... Caetano da Costa Alegre

QUANDO EU MORRER

 

Não quero! Tenho horror que a sepultura

mude em vermes meu corpo enregelado.

Se no fogo viveu minha alma pura,

quero, morto, meu corpo calcinado.

 

Depois de ser em cinzas transformado,

lancem-me ao vento, ao seio da natura...

Quero viver no espaço ilimitado,

no mar, na terra, na celeste altura.

 

E talvez no teu seio, ó virgem linda,

tão branco como o seio da virtude,

eu, feito em cinzas, me introduza ainda.

 

E no teu coração, pequeno e forte,

(ó gozo triste!) viva eu na morte,

já que na vida lá viver não pude!

 

 

Caetano da Costa Alegre

(Poeta de S. Tomé e Príncipe)

 

 

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Quinta-feira, 6 de Maio de 2010

Eu li ... William Butler Yeats

QUANDO FORES VELHA

 

Quando fores velha, grisalha e sonolenta

E te aqueceres à lareira, pega neste livro
E lê-o devagar, sonha com o olhar meigo
E com as sombras profundas outrora nos teus olhos;

 

Quantos amaram os teus momentos de feliz encanto
E a tua beleza com amor falso ou autêntico,
Além daquele homem que amou em ti a alma peregrina
E as tristezas que alteravam o teu rosto;

 

E curvando-te mais sobre a lareira ao rubro
Murmura, um pouco triste, como o Amor se foi
E caminhou sobre as montanhas lá no alto
E escondeu o rosto numa imensidão de estrelas.

 

 

In “Poemas de Amor”

Versões Ana Leal

Edição Alma Azul

 

William Butler Yeats

(Poeta Irlandês)

 

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