Domingo, 28 de Fevereiro de 2010

Eu li... Rui Barbosa

SINTO VERGONHA DE MIM
 
Sinto vergonha de mim
por ter sido educador de parte desse povo,
por ter batalhado sempre pela justiça,
por compactuar com a honestidade,
por primar pela verdade
e por ver este povo já chamado varonil
enveredar pelo caminho da desonra.
 
Sinto vergonha de mim
por ter feito parte de uma era
que lutou pela democracia,
pela liberdade de ser
e ter que entregar aos meus filhos,
simples e abominavelmente,
a derrota das virtudes pelos vícios,
a ausência da sensatez
no julgamento da verdade,
a negligência com a família,
célula-mater da sociedade,
a demasiada preocupação
com o "eu" feliz a qualquer custo,
buscando a tal "felicidade"
em caminhos eivados de desrespeito
para com o seu próximo.
 
Tenho vergonha de mim
pela passividade em ouvir,
sem despejar meu verbo,
a tantas desculpas ditadas
pelo orgulho e vaidade,
a tanta falta de humildade
para reconhecer um erro cometido,
a tantos "floreios" para justificar
actos criminosos,
a tanta relutância
em esquecer a antiga posição
de sempre "contestar",
voltar atrás
e mudar o futuro.
 
Tenho vergonha de mim
pois faço parte de um povo que não reconheço,
enveredando por caminhos
que não quero percorrer...
 
Tenho vergonha da minha impotência,
da minha falta de garra,
das minhas desilusões
e do meu cansaço.
Não tenho para onde ir
pois amo este meu chão,
vibro ao ouvir meu Hino
e jamais usei a minha Bandeira
para enxugar o meu suor
ou enrolar meu corpo
na pecaminosa manifestação de nacionalidade.
 
Ao lado da vergonha de mim,
tenho tanta pena de ti,
povo brasileiro!
 
"De tanto ver triunfar as nulidades,
de tanto ver prosperar a desonra,
de tanto ver crescer a injustiça,
de tanto ver agigantarem-se os poderes
nas mãos dos maus,
o homem chega a desanimar da virtude,
A rir-se da honra,
a ter vergonha de ser honesto"
 

Rui Barbosa

(Senador brasileiro em 1892 – Faleceu em 1923)

 

(Gentilmente remetido pela amiga Analice da Silva)

 

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Quinta-feira, 25 de Fevereiro de 2010

Eu li... Carvalho Branco

PRIMAVERA À BEIRA-MAR

Cresci à beira-mar, tendo por tema
De vida, o tom verde-água, a maresia...
Quando a cigarra cantava, eu sabia:
O verão nascia e já entrava em cena!

Dando asas a minha pequena mente,
Deixava fluir a imaginação,
Buscando conhecer cada estação
Do ano e, assim, me vi adolescente.

A minha volta, não havia cor
Outra, mais alegre, não tanto fria,
Que transmitisse alegria, calor!...

Desperta, enfim, por pura epifania,
Em mim, uma forte paixão impera:
Vejo a cor das Flores da Primavera!...

 

 

 

Carvalho Branco

Pseudónimo de Marilza de Castro

(Poetisa Brasileira)

 

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Sábado, 20 de Fevereiro de 2010

Eu li... Fagundes Varela

O MESMO

 

Desde a quadra mais antiga

De que rezam pergaminhos,

Cantam a mesma cantiga

Na floresta os passarinhos.

 

Têm o mesmo aroma as flores,

Mesma verdura as campinas,

A brisa os mesmos rumores,

Mesma leveza as neblinas.

 

Tem o sol as mesmas luzes,

Tem o mar as mesmas vagas,

O deserto as mesmas urzes,

A mesma dureza as fragas.

 

Os mesmos tolos o mundo,

A mulher o mesmo riso,

O sepulcro o mesmo fundo,

Os homens o mesmo siso.

 

E neste insípido giro,

Neste voo sempre a esmo,

Vale a pena, em seu retiro,

Cantar o poeta, mesmo?

 

 

Fagundes Varela

(Poeta Brasileiro)

 

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Segunda-feira, 15 de Fevereiro de 2010

Eu li... Décio Bettencourt Mateus

DISCURSO NO PARLAMENTO

 

Um dia, encho-me de coragem

E vou mesmo discursar no parlamento

Confesso que fiz juramento

De ir a pé até lá

De entrar naquela sala,

Para discursar a minha mensagem

 

Um dia, apareço nas câmaras da televisão

Verdade mesmo, não é ilusão

Apareço com o meu rosto maltratado

Com o meu rosto de drogado

Para pedir um ponto de ordem

Aos senhores deputados,

Eu mesmo que vivo do outro lado da margem

 

Já sei que vão olhar com indignação

Para os meus pés descalços

Para os meus calções rotos

E para os meus magritos braços

Já consigo imaginar os vossos rostos

De indignação e estupefacção

 

Mas mesmo assim eu vou mesmo discursar

Em plena assembleia nacional

Assim mesmo, com este meu visual

De menino de rua votado ao abandono

De menino de rua cão sem dono

Eu vou à assembleia nacional falar

 

Assim mesmo, sem convite

E sem ser chamado

Eu, que não sei falar português de escola

Vou entrar naquela sala

Para falar com os senhores deputados

Eu vou lá sem convite, acredite!

E antes de me porem andar à paulada

Antes de me mandarem calar à porrada

Vou rasgar o meu peito

Para vocês escutarem o grito

De tanto sofrimento vivido

De tanto sofrimento bebido

 

E enquanto estiver a ser arrastado

Para fora da assembleia nacional

Eu, menino de rua cão sem dono e drogado

Eu, menino de rua marginal

Ainda terei coragem

Ainda serei capaz

De trovejar a minha mensagem:

 

POR FAVOR, PÃO, TECTO E PAZ!

 

Não levem a mal

Mas eu vou mesmo discursar em plena assembleia nacional!

 

 

In "A Fúria do Mar"

 

Décio Bettencourt Mateus

(Poeta Angolano)

 

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Quarta-feira, 10 de Fevereiro de 2010

Eu li... Júlio Brandão

SOMBRA

 

Vi-te uma vez, bem me lembro,

Quando passava na estrada.

Tinhas os olhos enormes,

E uns jeitos de namorada.

 

Que linda! Nem reparaste

Em mim, na melancolia

Que te punha o rosto pálido…

Era quase ao fim do dia.

 

Tinhas na tua janela,

Em flor, dois grandes craveiros.

Já a lua branca nascia

Como um ai, entre salgueiros.

 

Tornei a olhar-te de longe:

Tinhas os olhos pregados

Nalgum sonho imenso e vago,

Como os céus já mal doirados…

 

Nunca mais tornei a ver-te,

(Para que foi que te vi?!)

Mais tarde ouvi que morreras,

Ninguém mais falou em ti.

 

Ninguém mais! Foste levada

Nos grandes sonhos dispersos…

Só os craveiros secaram,

E eu escrevi estes versos!

 

 

Porto.

 

In “Revista A Águia”

N.º 1 – 1ª Série de 1/12/1910 – Ano I

 

 

Júlio Brandão

 

 

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Sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010

Eu li... José Craveirinha

GRITO NEGRO

 

Eu sou carvão! 

E tu arrancas-me brutalmente do chão

e fazes-me tua mina, patrão. 

 

Eu sou carvão! 

E tu acendes-me, patrão

para te servir eternamente como força motriz

mas eternamente não, patrão. 

Eu sou carvão

e tenho que arder, sim

e queimar tudo com a força da minha combustão. 

Eu sou carvão

tenho de andar na exploração

arder até às cinzas da maldição

arder vivo como alcatrão, meu irmão

até não ser mais a tua mina, patrão. 

Eu sou carvão.

Tenho que arder

queimar tudo com o fogo da minha combustão.

Sim!

Eu serei o teu carvão, patrão!

 

 

In “Antologia Temática de Poesia Africana, I”

Editora Sá da Costa

 

José Craveirinha

(Poeta Moçambicano)

 

 

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