Segunda-feira, 30 de Novembro de 2009

Eu li... Miguel Torga

FÁBULA DA FÁBULA

 

Era uma vez

Uma fábula famosa,

Alimentícia e moralizadora.

Que, em verso e prosa,

Toda a gente

Inteligente,

Prudente

E sabedora repetia aos filhos,

Aos netos e aos bisnetos.

 

À base de uns insectos,

De que não vale a pena fixar o nome,

A fábula garantia

Que quem cantava

Morria

De fome.

 

E, realmente...

Simplesmente,

Enquanto a fábula contava,

Um demónio segredava

Ao ouvido secreto

De cada criatura

Que quem não cantava morria de fartura.

 

 

In “Antologia Poética”

 

Miguel Torga

 

 

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Quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

Eu li... Patrícia Barrocas

OLHEI

 

Olhei o povo

Imerso em terror

E perguntei-me:

Onde está o amor?

 

Olhei a guerra,

A ambição voraz,

E perguntei-me:

Onde está a paz?

 

Olhei o deserto,

Outrora floresta colorida,

E perguntei-me:

Onde está a vida?

 

Olho este mundo,

Outrora limpo e puro,

E pergunto-me:

Ainda teremos futuro?

 

 

In “Fátima Missionária”

 

Patrícia Barrocas

 

 

 

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Sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

Eu li... Coelho Netto

SER MÃE

 

Ser mãe é desdobrar fibra por fibra
o coração! Ser mãe é ter no alheio
lábio que suga, o pedestal do seio,
onde a vida, onde o amor, cantando, vibra.

 

Ser mãe é ser um anjo que se libra
sobre um berço dormindo! É ser anseio,
é ser temeridade, é ser receio,
é ser força que os males equilibra!


Todo o bem que a mãe goza é bem do filho,
espelho em que se mira afortunada,
luz que lhe põe nos olhos novo brilho!

 

Ser mãe é andar chorando num sorriso!
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso!

 

 

Coelho Netto

(Escritor, político e professor brasileiro)

 

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Domingo, 15 de Novembro de 2009

Eu li... Marianne Moore

OS PEIXES

 

Avançam penosamente

através do negro jade.
Das conchas de mexilhão, azul-corvo, uma contínua

a ajustar os montes de cinza;
abrindo-se e fechando-se como

 

um

leque danificado.
As lapas, que se incrustam do lado
da ondulação, não se podem ali

esconder pois os raios de luz submersos do

 

sol,
divididos como fios

de vidro, movem-se com a rapidez de projectores

penetrando nas fendas –

fora e dentro iluminando


o

mar turquesa

desses corpos. A água impele um pedaço
de ferro por entre a férrea aresta

da falésia onde as estrelas,


grãos

de arroz rosados, a alforreca

salpicada de tinta, caranguejos como lírios
verdes, e cogumelos

venosos submarinos, deslizam uns sobre os outros.

 

Todas

as marcas
externas de violação estão patentes neste

edifício desafiador –

todos as características físicas do

 

de-

sastre –, ausência

de cornija, rastos de dinamite, queimaduras e

golpes de machado, eis o que sobressai

nele; a vertente do abismo está

 

morta.

Repetida
evidência  que provou como consegue viver

onde não pode a sua juventude

renascer. Aí, o mar envelhece.

 

 

In”Poemas de Marianne Moore e Elisabeth Bishop”

Tradução de Maria Lourdes Guimarães

Campo das Letras

 

Marianne Moore

(Poetisa Americana)

 

 

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Terça-feira, 10 de Novembro de 2009

Eu li... Eduarda Chiote

MORTE

Não encontrei – e não há solidão maior! – com quem chorar
A morte de um amigo que se não
Despediu.
Fica tu, sejas tu quem fores,
fora dela.
Não lha mereces.
Sereno, o sofrimento já não dói.
É apenas uma tristeza
bonita.
Precisei-vos tanto, tanto!
A vossa presença
teria tornado mais leve a minha mágoa: mas a vida
que anda para trás e para diante
não parou.
Ninguém, nenhum de vós
veio trazer-me o consolo de uma lágrima.
Ainda bem.
Ter-vos-ia dito: se me virem na sarjeta, pisem-me em cima;
se me querem
bem,
não se condoam.
Por agora, nem sequer preciso de um colchão
para descansar como fazem os vivos – dormirei dentro
de um contentor
e aí chorarei sozinha
o meu amigo.
O meu amigo.
Ele é hoje uma semente
na terra.
Esta
sentirá a fome de suas mãos
quando um camponês
semear nela
uma batata grelada: e, então, quando a minha apertar,
mastigarei palavras limpas: honestas
como o eram
as suas.
O meu lugar à mesa onde ele me servia o vinho
à refeição
e ouvia os desconcertos
está desolado; por isso te peço,
vazio a quem nunca menti, deixa-me albergar
no teu nada – morar
dentro de ti.



In “O Meu Lugar à Mesa”

Quasi Edições

 

Eduarda Chiote

 

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Quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

Eu li... Luandino Vieira

CANÇÃO PARA LUANDA

 

A pergunta no ar

no mar

na boca de todos nós:

- Luanda onde está?

 

Silêncio nas ruas

Silêncio nas bocas

Silêncio nos olhos

 

- Xé

mana Rosa peixeira

responde?

 

- Mano

Não pode responder

tem de vender

correr a cidade

se quer comer!

 

“Olá almoço, olá almoçoéé

matona calapau

ji ferrera ji ferreréé”

 

- E você

mana Maria quitandeira

vendendo maboques

os seios-maboque

gritando

saltando

os pés percorrendo

caminhos vermelhos

de todos os dias?

“maboque, m’boquinha boa

dóce dócinha”

 

- Mano

não pode responder

o tempo é pequeno

para vender!

 

Zefa mulata

o corpo vendido

baton nos lábios

os brincos de lata

sorri

abrindo o seu corpo

- seu corpo cubata!

Seu corpo vendido

viajado

de noite e de dia.

- Luanda onde está?

 

Mana Zefa mulata

o corpo cubata

os brincos de lata

vai-se deitar

com quem lhe pagar

- precisa comer!

- Mano dos jornais

Luanda onde está?

As casa antigas

o barro vermelho

as nossas cantigas

tractor derrubou?

 

Meninos das ruas

caçambulas

quigosas

brincadeiras minhas e tuas

asfalto matou?

 

- Manos

Rosa peixeira

quitandeira Maria

você também

Zefa mulata

dos brincos de lata

- Luanda onde está?

 

Sorrindo

as quindas no chão

laranjas e peixe

maboque docinho

a esperança nos olhos

a certeza nas mãos

mana Rosa peixeira

quitandeira Maria

Zefa mulata

- os panos pintados

garridos,

caídos

mostraram o coração:

- Luanda está aqui!

 

 

In “Antologia Temática de Poesia Africana I”

Editora Livraria Sá da Costa

 

Luandino Vieira

(Poeta Angolano)

 

 

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