Sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

Eu li... Fernando Carvalho

CATRAIA DO PORTO

 

Essa linda florista do Mercado do Bolhão
A catraia mais trocista que prendeu meu coração
Fontaínhas, a Ribeira e o Bonfim eram só dela
Tinha a graça e a maneira de andorinha tagarela

 

Catraia bonita, de blusa de chita, saiote de lã
Dois olhos, dois sonhos e uns lábios risonhos da cor de romã
Visão que enternece e o Porto conhece de vê-la passar
Perfil agareno do lírio moreno aberto ao luar

 

Desde a Praça da Batalha 'té à Serra do Pilar
Queimam sonhos na fornalha dos seus olhos de encantar
E da Foz à velha Sé as areias do caminho
Sob o rasto do seu pé dizia muito baixinho

 

Catraia bonita, de blusa de chita, saiote de lã
Dois olhos, dois sonhos e uns lábios risonhos da cor de romã
Visão que enternece e o Porto conhece de vê-la passar
Perfil agareno do lírio moreno aberto ao luar


In “Colectânea Caravela – Alberto Ribeiro” – 1996

 

Fernando Carvalho

 

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Domingo, 25 de Outubro de 2009

Eu li... Ricardo Reis/Fernando Pessoa

CADA COISA

 

Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.

Não florescem no inverno os arvoredos,

Nem pela primavera

Têm branco frio os campos.

 

À noite, que entra, não pertence, Lídia,

O mesmo ardor que o dia nos pedia.

Com mais sossego amemos

A nossa incerta vida.

 

À lareira, cansados não da obra

Mas porque a hora é a hora dos cansaços,

Não puxemos a voz

Acima de um segredo,

 

E casuais, interrompidas, sejam

Nossas palavras de reminiscência

(Não para mais nos serve

A negra ida do Sol) —

 

Pouco a pouco o passado recordemos

E as histórias contadas no passado

Agora duas vezes

Histórias, que nos falem

 

Das flores que na nossa infância ida

Com outra consciência nós colhíamos

E sob uma outra espécie

De olhar lançado ao mundo.

 

E assim, Lídia, à lareira, como estando,

Deuses lares, ali na eternidade,

Como quem compõe roupas

O outrora compúnhamos

 

Nesse desassossego que o descanso

Nos traz às vidas quando só pensamos

Naquilo que já fomos,

E há só noite lá fora.

 

 

In “Odes de Ricardo Rei”

 

Ricardo Reis/Fernando Pessoa

1887 – 1935

 

 

 

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Terça-feira, 20 de Outubro de 2009

Eu li... Federico Garcia Lorca

MINHA MENINA SE FOI AO MAR

Minha menina se foi ao mar
a contar ondas e pedrinhas,
porém se encontrou, de pronto,
com o rio de Sevilha.
Entre adelfas e sinos
cinco barcos se mexiam,
com os remos na água
e as velas na brisa.
Quem olha dentro a torre
adornada de Sevilha?
Cinco vozes contestavam
redondas como anéis.
O céu monta elegante
ao rio, de margem a margem.
No ar cor-de-rosa,
cinco anéis se mexiam.

In "Canciones” 1921-1924.

 

Federico Garcia Lorca

(Poeta Espanhol)

 

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Quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

Eu li... Vicente de Carvalho

VELHO TEMA

 

Só a leve esperança, em toda a vida,          

Disfarça a pena de viver, mais nada;           

Nem é mais a existência, resumida,                   

Que uma grande esperança malograda

 

O eterno sonho da alma desterrada,              

Sonho que a traz ansiosa e embevecida,                

É uma hora feliz, sempre adiada                         

E que não chega nunca em toda a vida.

 

Essa felicidade que supomos,         

Árvore milagrosa que sonhamos    

Toda arreada de dourados pomos,

 

Existe, sim mas nós não a alcançamos 

Porque está sempre apenas onde a pomos    

E nunca a pomos onde nós estamos.

 

 

Vicente de Carvalho

(Jornalista e Poeta Brasileiro)

 

 

 

 

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Sábado, 10 de Outubro de 2009

Eu li... Safo

OH FILHA DE ZEUS

 

Oh filha de Zeus, imortal Afrodite,
tu que tanto engano teces, em teu trono
cintilante, não sujeites meu coração
a dor tão grande!

Vem, vem como quando um dia ao longe
a voz me ouviste, as súplicas me escutaste,
e a casa de teu pai abandonando
até mim vieste,

 

em teu carro de oiro. Belas, velozes aves

do alto Céu à Terra escura te trouxeram

em numeroso e denso agitar de asas

através do ar.

 

Depressa aqui chegaram, e tu, divina,

um sorriso abrindo no rosto imortal,

perguntaste que sofrimento era o meu

para assim clamar,

 

e que queria meu louco coração ainda.

«Quem queres tu que persuada agora

ao teu amor? De quem te queixas, Safo?

Quem te atormenta?

 

Se ela te foge, seguir-te-á não tarda;

se o que lhe dás recusa, em breve será ela

a dar; se te não ama, sem o que deseje,

virá a amar-te

Oh vem, vem agora e liberta-me desta
angústia mortal! O que meu coração
tanto deseja, faz que aconteça. Vem,
ajuda-me a lutar!


Safo

(Poetisa Grega do século VII a.C.)

 

(tradução de Eugénio de Andrade)

 

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Segunda-feira, 5 de Outubro de 2009

Eu li... Manuel Lopes

POEMA DE QUEM FICOU

 

Eu não te quero mal

por esse orgulho que tu trazes;

por esse teu ar de triunfo iluminado

com que voltas…

 

… O mundo não é maior

que a pupila dos teus olhos:

tem a grandeza

da tua inquietação e das tuas revoltas.

 

… Que teu irmão que ficou

sonhou coisas maiores ainda,

mais belas que aquelas que conheceste…

Crispou as mãos à beira do mar

e teve saudades estranhas, de terras estranhas,

com bosques, com rios, com outras montanhas

– bosques de névoa, rios de prata, montanhas de oiro–

 

que nunca viram teus olhos

no mundo que percorreste…

 

 

In “Antologia Temática de Poesia Africana I”

Editora Sá da Costa

 

Manuel Lopes

(Poeta Cabo-Verdiano)

 

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