Quinta-feira, 30 de Abril de 2009

Eu li... Pablo Neruda

TALVEZ

 

Talvez não ser é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando o meio dia

com uma flor azul, sem que caminhes

mais tarde pela névoa e os ladrilhos,


sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,

sem que sejas, enfim, sem que viesses

brusca, incitante, conhecer a minha vida,
aragem de roseira, trigo do vento,

 

e desde então, sou porque tu és,
e desde então és, sou e somos...
E por amor serei... Serás... Seremos...

 

In “Cem Sonetos de Amor”

 

Pablo Neruda

(Poeta Chileno)

 

 

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Sábado, 25 de Abril de 2009

Eu li... Fernando Pessoa

LIBERDADE

 

Ai que prazer

Não cumprir um dever,

Ter um livro para ler

E não o fazer!

Ler é maçada,

Estudar é nada.

O sol doira

Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,

Sem edição original.

E a brisa, essa,

De tão naturalmente matinal,

Como tem tempo não tem pressa...

 

Livros são papéis pintados com tinta.

Estudar é uma coisa em que está indistinta

A distinção entre nada e coisa nenhuma.

 

Quanto é melhor, quando há bruma,

Esperar por D. Sebastião,

Quer venha ou não!

 

Grande é a poesia, a bondade e as danças...

Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música, o luar, e o sol, que peca

Só quando, em vez de criar, seca.

 

O mais do que isto

É Jesus Cristo,

Que não sabia nada de finanças

Nem consta que tivesse biblioteca...

 

 

In “Seara Nova” N.º 526 – 11/9/1937

 

Fernando Pessoa

 

 

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Segunda-feira, 20 de Abril de 2009

Eu li... Alexandre O’Neil

APROVEITANDO UMA ABERTA

 

«Ó virgens que passais ao sol-poente»

com esses filhos-familia,

pensai, primeiro, na mobília,

que é mais prudente.

 

Sim, que essa qualidade,

tão bem reconstituída,

nem sempre, revirgens, há-de

proporcionar-vos a vida

 

que levais.

Se um tolo nunca vem só,

quando não vem, não vem mais

ou vem, digamos, por dó…

 

E o dó dói como um soco,

até mesmo quando parte

de um tolo que a vossa arte

promoveu de tolo a louco.

 

Eu quando digo mobília,

digo lar, digo família

e aquela espiada fresta,

aberta, patente, honesta,

 

retrato oval da virtude,

consoladora do triste,

remanso, beatitude

para o colérico em riste.

 

Assim, sim, virgens sensatas!

(Nos telhados só as gatas…)

Pensai antes na mobília,

honestas mães de família,

e aceitai respeitos mil

do vosso

Alexandre O’Neil!

 

 

In “Poesias Completas”

 

Alexandre O’Neil

 

 

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Quarta-feira, 15 de Abril de 2009

Eu li... António Gonçalves Silva "Patativa do Assaré"

GRAVADOR

 

Gravador, está gravando

Aqui no nosso ambiente.

Tu gravas a minha voz,

O meu verso, o meu repente,

Mas gravador tu não gravas

A dor que o meu peito sente.

 

Tu gravas em tuas fitas

Com a maior perfeição

O timbre da minha voz

E a minha fraca expressão,

Mas não gravas a dor grave

Gravada em meu coração.

 

Gravador, tu és feliz

E ai de mim, o que esperar?

Bem podes ter desgravado

Quem em tua fita está,

Mas a dor do meu coração

Jamais se desgravará.

 

 

In “Empório Brasil” – S. Paulo – 1988

Editora Clube do Livro/Melhoramentos   

 

António Gonçalves da Silva

(Poeta Popular Brasileiro, conhecido

pela alcunha de Patativa do Assaré)

 

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Sexta-feira, 10 de Abril de 2009

Eu li... João Penha

CANÇÃO DE BOÉMIOS

 

Oh vós, que do canto sois velhos fregueses,

Ouvi destas liras o mélico emprego!

Nós somos as gemas, os bifes ingleses,

Os paios das filhas do claro Mondego.

 

Sorri-nos a vida nos cálices cheios

Dos roxos falernos das parras das Beira;

Sorri-nos a Céres dos túmidos seios;

Sorri-nos dos bosques a Vénus ligeira.

 

Nos mestos papiros da ciência moderna

A droga se encontra que ao sono convida;

Queimemo-los todos, que só na taberna

Os livros se encontram da ciência da vida.

 

Ao vento os cabelos! Por montes e vales

Corramos no passo das gregas choreas!

Bachantes das praças, vibrai os cimbales!

Abri as portas, gentis Galanteas!

 

 

Lira dos Pangloss

 

In “Rimas”

Estante Editora – Dezembro.1990

 

João Penha

 

 

 

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Domingo, 5 de Abril de 2009

Eu li... Rolando Boldrin

CHICO BOATEIRO

 

Olha o Chico Boateiro

que prazer mais lindo,

de contar mentiras

de tão lindo enredo,

e diz que foi com ele

que aconteceu.

 

Às vezes triste fica

a sua prosa.

Diz que foi a Rosa,

diz que foi o amor,

que vem de longe

este seu desatino,

que quem faz destino

o Nosso Senhor

desde menino

mostra a sua dor.

 

Olha a moça na janela

manda lá pro fundo

que a estória é forte,

a melhor do mundo,

e o Chico Boateiro

diz que aconteceu.

 

Mas… eis que um dia

se desfaz a roda,

a gente pára a moda,

o mundo se acabou,

vem outro Chico

pra falar de Chico

pra contar das contas

que ele não pagou

e conta a morte

 

QUE ELE NÃO CONTOU.

 

In “Empório Brasil” – S. Paulo – 1988

Editora Clube do Livro/Melhoramentos   

 

Rolando Boldrin

(cantor, actor e apresentador

de televisão brasileiro)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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