Domingo, 30 de Novembro de 2008

Eu li... Manuel Maria de Barbosa du Bocage

JÁ SE AFASTOU DE NÓS O INVERNO

 

Já se afastou de nós o Inverno agreste

Envolto nos seus úmidos vapores,

A fértil Primavera, a mãe das flores

O prado ameno de boninas veste.

 

Varrendo os ares, o subtil Nordeste

Os torna azuis: as aves de mil côres

Adejam entre Zéfiros, e Amores,

E toma o fresco Tejo a côr celeste:

 

Vem, ó Marília, vem lograr comigo

Dêstes alegres campos a beleza,

Destas copadas árvores o abrigo.

 

Deixa louvar da Côrte a vã grandeza:

Quanto me agrada mais estar contigo

Notando as perfeições da Natureza!

 

 

In “Bocage – Sonetos” – Clássicos Portugueses

Trechos Escolhidos – Século XVIII – Poesia

Livraria Clássica Editora – Lisboa – 1943

 

 

Manuel Maria de Barbosa du Bocage

 

 

 

 

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Terça-feira, 25 de Novembro de 2008

Eu li... Elísio de Vasconcelos

SE…

 

Não chores nunca, não, quando eu morrer,

Só por nosso Amor ter sido imenso!

E na verdade, sendo assim, eu penso

Nada nos deverá fazer sofrer.

 

Bem sei que é doloroso de perder

A quem o coração nos traz suspenso…

E foi em nosso lar carinho intenso,

A razão e a alegria de viver!

 

Mas o mundo não pára! E Deus ordena

Em todo o mal resignação serena,

Nos conformemos, sempre, com a sorte.

 

P’ra que ficarmos de olhos orvalhados…

Por lágrimas e luto separados,

Se a vida não acaba com a morte?!...

 

 

In “A Ternura Que Me Deste” – Poesias – 1945

Livraria Figueirinhas – Porto

 

Elísio de Vasconcelos

1907 -1965

 

 

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Quinta-feira, 20 de Novembro de 2008

Eu li... Manuel António Cordeiro

O AMOR

 

Meu amor, eu tenho amor

A quem amor tem por mim

A quem ama com amor

A quem amor tem por ti.

Com amor e pouco mais

O amor nos alimenta

É como o pão dos trigais

No prato da nossa ementa.

 

O amor é meio sustento

Para quem tem pouco pão

É o melhor alimento

Que recebe o coração.

Com amor pode viver

Sem amor não viverá

Tendo amor tem que comer

Que é o amor que lho dá.

 

O amor é tudo na vida

Quando é amor perfeito

Não é planta florida

É pela vida o respeito.

Ter amor é ter na vida

Do melhor que pode ter

É a relíquia querida

Que deixa quando morrer.

 

 

In “Realismo Popular”

Poemas – 2ª Publicação

Porto da Lage – Tomar

 

Manuel António Cordeiro

 

 

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Sábado, 15 de Novembro de 2008

Eu li... Augusto Gil

O PASSEIO DE SANTO ANTÓNIO

Saíra Santo António do convento,
A dar o seu passeio costumado
E a decorar, num tom rezado e lento,
Um cândido sermão sobre o pecado.

Andando, andando sempre, repetia
O divino sermão piedoso e brando,
E nem notou que a tarde esmorecia,
Que vinha a noite plácida baixando…

E andando, andando, viu-se num outeiro,
Com árvores e casas espalhadas,
Que ficava distante do mosteiro
Uma légua das fartas, das puxadas.

Surpreendido por se ver tão longe,
E fraco por haver andado tanto,
Sentou-se a descansar o bom do monge,
Com a resignação de quem é santo…

O luar, um luar claríssimo nasceu.
Num raio dessa linda claridade,
O Menino Jesus baixou do céu,
Pôs-se a brincar com o capuz do frade.

Perto, uma bica de água murmurante
Juntava o seu murmúrio ao dos pinhais.
Os rouxinóis ouviam-se distante.
O luar, mais alto, iluminava mais.

De braço dado, para a fonte, vinha
Um par de noivos todo satisfeito.
Ela trazia ao ombro a cantarinha,
Ele trazia… o coração no peito.

Sem suspeitarem de que alguém os visse,
Trocaram beijos ao luar tranquilo.
O Menino, porém, ouviu e disse:
- Ó Frei António, o que foi aquilo?…

O Santo, erguendo a manga de burel
Para tapar o noivo e a namorada,
Mentiu numa voz doce como o mel:
- Não sei o que fosse. Eu cá não ouvi nada…

Uma risada límpida, sonora,
Vibrou em notas de oiro no caminho.
- Ouviste, Frei António? Ouviste agora?
- Ouvi, Senhor, ouvi. É um passarinho.

- Tu não estás com a cabeça boa…
Um passarinho a cantar assim!…
E o pobre Santo António de Lisboa
Calou-se embaraçado, mas por fim,

Corado como as vestes dos cardeais,
Achou esta saída redentora:
- Se o Menino Jesus pergunta mais,
…Queixo-me à sua mãe, Nossa Senhora!

Voltando-lhe a carinha contra a luz
E contra aquele amor sem casamento,
Pegou-lhe ao colo e acrescentou: - Jesus,
São horas…

                      E abalaram pró convento.

 

 

In “Luar de Janeiro”

Colecção – Autores Portugueses de Ontem – 1989

Estante Editora

 

Augusto Gil

 

 

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Segunda-feira, 10 de Novembro de 2008

Eu li... Oliveira Estêvão

PRECE

 

De mãos erguidas clamo a minha prece

E, peço-Vos, meu Deus, pelos doentes;

Pelos que sofrem mais, como descrentes,

E pela Humanidade que padece…

 

Mesmo por todo o ser que não merece

A graça de viver por entre as gentes,

E os que na vida sempre descontentes

São como a ingratidão que tudo esquece…

 

E peço-Vos, meu Deus, até por mim:

– Que eu tenha sempre um grande coração

E veja na Humanidade o meu destino;

 

Que o amor me acompanhe até ao fim,

A Pátria seja a minha devoção

E creia em Vós, Senhor, meu Pai Divino!

 

 

Lisboa – Maio de 1958

 

In “Pedaços da Minha Alma” – Lisboa – 1971

Edição do Autor

 

Oliveira Estêvão

 

 

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Quarta-feira, 5 de Novembro de 2008

Eu li... José Emílio Cepeda

MENDIGO

 

Mendigo que mendigas compaixão

Ah! Que ignóbil sina Deus te deu

Teres que mendigar o que é teu

Estendendo a mão ao teu irmão

 

Anda mendigo amigo dá-nos a mão

Como tu somos alguém que já morreu

Mendigando o que sempre nos pertenceu

Pelos caminhos da incompreensão

 

Quando um dia para sempre escurecer

Em nós sorrirá o amanhecer

As trevas da noite serão claridade

 

Não mais as migalhas serão comidas

Teremos na morte o sonho da vida

Vivendo enfim a igualdade.

 

 

José Emílio Cepeda

(Prof. de História)

Escola Secundária da Sé – Bragança

 

 

 

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