Sábado, 15 de Novembro de 2008

Eu li... Augusto Gil

O PASSEIO DE SANTO ANTÓNIO

Saíra Santo António do convento,
A dar o seu passeio costumado
E a decorar, num tom rezado e lento,
Um cândido sermão sobre o pecado.

Andando, andando sempre, repetia
O divino sermão piedoso e brando,
E nem notou que a tarde esmorecia,
Que vinha a noite plácida baixando…

E andando, andando, viu-se num outeiro,
Com árvores e casas espalhadas,
Que ficava distante do mosteiro
Uma légua das fartas, das puxadas.

Surpreendido por se ver tão longe,
E fraco por haver andado tanto,
Sentou-se a descansar o bom do monge,
Com a resignação de quem é santo…

O luar, um luar claríssimo nasceu.
Num raio dessa linda claridade,
O Menino Jesus baixou do céu,
Pôs-se a brincar com o capuz do frade.

Perto, uma bica de água murmurante
Juntava o seu murmúrio ao dos pinhais.
Os rouxinóis ouviam-se distante.
O luar, mais alto, iluminava mais.

De braço dado, para a fonte, vinha
Um par de noivos todo satisfeito.
Ela trazia ao ombro a cantarinha,
Ele trazia… o coração no peito.

Sem suspeitarem de que alguém os visse,
Trocaram beijos ao luar tranquilo.
O Menino, porém, ouviu e disse:
- Ó Frei António, o que foi aquilo?…

O Santo, erguendo a manga de burel
Para tapar o noivo e a namorada,
Mentiu numa voz doce como o mel:
- Não sei o que fosse. Eu cá não ouvi nada…

Uma risada límpida, sonora,
Vibrou em notas de oiro no caminho.
- Ouviste, Frei António? Ouviste agora?
- Ouvi, Senhor, ouvi. É um passarinho.

- Tu não estás com a cabeça boa…
Um passarinho a cantar assim!…
E o pobre Santo António de Lisboa
Calou-se embaraçado, mas por fim,

Corado como as vestes dos cardeais,
Achou esta saída redentora:
- Se o Menino Jesus pergunta mais,
…Queixo-me à sua mãe, Nossa Senhora!

Voltando-lhe a carinha contra a luz
E contra aquele amor sem casamento,
Pegou-lhe ao colo e acrescentou: - Jesus,
São horas…

                      E abalaram pró convento.

 

 

In “Luar de Janeiro”

Colecção – Autores Portugueses de Ontem – 1989

Estante Editora

 

Augusto Gil

 

 

publicado por cateespero às 00:00
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3 comentários:
De Zélia a 16 de Novembro de 2008 às 12:34
Que lindo poema!
Quanta ternura e delicadeza o autor colocou nesses versos... Gostei muito!


Beijos de luz e um domingo feliz!


Obrigada pela tão gentil visita, volte sempre...
De poetaporkedeusker a 17 de Novembro de 2008 às 17:29
Tão bonito este poema do Augusto Gil, meu amigo!
Tenho uma vaga - mesmo muito vaga - sensação de já o ter lido, há muito tempo... mas já estou a ficar com a memória avariada... tenho lido e escrito tanta poesia, nestes últimos meses, que a memória começa a pregar-me partidas.
um grande abraço.
De Inês Lourenço a 18 de Novembro de 2008 às 18:44
Olá António.
Lembro-me muito bem deste poema, pois a minha irmã maisa velha recitava-o de copr . Nesse tempo as crianças eram estimuladas pelos professores a dizer poesia de cor.
Mas, no tempo presente, o "amor sem casamento" já não é tabu para nenhum menino, mesmo chamado Jesus.
De qualquer forma o poema foi celebérrimo, à época e acaba por ser interessante a dimensão humana e ingénua, com que as "personagens" são tratadas.

Até breve
I.

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